derivada do condão umbilical
não há nenhum mistério
nasce primeiro a poesia
nasce depois o poeta
sem ciências exactas
com exactidão absurda
nasce prelúdio o grito
apogeu ensanguentando
rio correndo pelas pernas
gloriosas na dor da mãe
e se a criatura vem à luz
talvez "morra na praia"
com o condão umbilical
(não o cordão umbilical)
abraçando a sua garganta
será por certo mostrengo
poesia cega bruta e sórdida
dos dedos fará língua oculta
dos espinhos fará mil rosas
elevado no absoluto silêncio
tecerá tremendos os caules
na planta dos horrendos pés
e pelos ruidosos caminhos
tecerá o mais negro sepulcro
ténue véu esvaecido e lúcido
será tentado a estugar o passo
pelos mesmos campos comuns
que partilha com bois de charrua
onde a charrua fingirá palavras
onde o boi se move pelos cornos
e incapaz do objectivo terreno
ser-lhe-á imposto que caminhe
que caminhe sempre incapaz
até que a inevitável escuridão
se abata leve nas pálpebras.
(Pedro Rodrigues de Menezes, "derivada do condão umbilical")
Comentários (2)
Tão bom meu poeta preferido adorei
Filho adorei o Poema