derivada do condão umbilical

não há nenhum mistério 
nasce primeiro a poesia
nasce depois o poeta
sem ciências exactas 
com exactidão absurda
nasce prelúdio o grito 
apogeu ensanguentando 
rio correndo pelas pernas
gloriosas na dor da mãe 
e se a criatura vem à luz
talvez "morra na praia"
com o condão umbilical
(não o cordão umbilical)
abraçando a sua garganta 
será por certo mostrengo
poesia cega bruta e sórdida 
dos dedos fará língua oculta
dos espinhos fará mil rosas
elevado no absoluto silêncio 
tecerá tremendos os caules
na planta dos horrendos pés 
e pelos ruidosos caminhos
tecerá o mais negro sepulcro 
ténue véu esvaecido e lúcido 
será tentado a estugar o passo
pelos mesmos campos comuns
que partilha com bois de charrua 
onde a charrua fingirá palavras
onde o boi se move pelos cornos 
e incapaz do objectivo terreno
ser-lhe-á imposto que caminhe
que caminhe sempre incapaz
até que a inevitável escuridão 
se abata leve nas pálpebras.

(Pedro Rodrigues de Menezes, "derivada do condão umbilical")

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Comentários (2)

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Rosália Oliveira
Rosália Oliveira
2026-03-24

Tão bom meu poeta preferido adorei

Filho adorei o Poema.
Filho adorei o Poema.
2026-03-24

Filho adorei o Poema