Escritas

Aureola da noite

Charlanes Olivera Santos

Outrora, nas arcadas do firmamento ignoto, verteu-se o mosto do tempo em ânforas de sombra, e o vento, em súbita arrastou consigo o fulgor mineral das constelações dispersas.

Submerso no âmago dos pomares órficos, o sangue solar cintilava em crisólitas ardentes; o estio, em súbito paroxismo, devorava as nervuras da macieira hipostática.

O céu, em sua liturgia sideral, concedia apenas instantes de clarividência

As raposas ululavam nos meandros glaciais, sob a tessitura espectral dos seixos numinosos

Eis que os cavalos ígneos, em relinchos de eternidade,

transpunham os umbrais da estrebaria verdejante,

abrindo veredas para os campos heterofônicos onde a luz se fazia verbo primordial o tempo órfico e inflexível circundava o espaço em espirais de ouro, e nas órbitas inefáveis da manhã, a melodia abscôndita dos astros se desvelava em cântico inaugural.

E tudo, em combustão mística, feneceu no instante de sua própria origem o feno em labaredas, a noite em ascensão, e o sol, em último clarão, reencarnou na vastidão do ser

Outrora a seiva do outono verteu-se nas videiras esquecidas,

e as folhas, em fulgor crepuscular, recobriram o chão com brasas mansas.

Na colina, um eco de sinos dissolvia-se no vento errante,

o sangue da terra pulsava como cântico em transe nas arcadas do firmamento ignoto, verteu-se o mosto do tempo em ânforas de sombra, e o vento, em súbita, arrastou consigo o fulgor mineral das constelações dispersas.

Submerso no âmago dos pomares órficos, o sangue solar cintilava em crisólitas ardentes; o estio, em súbito paroxismo, devorava as nervuras da macieira hipostática.

O céu, em sua liturgia sideral, concedia apenas instantes de clarividência; as raposas ululavam nos meandros glaciais, sob a tessitura espectral dos seixos numinosos.

Eis que os cavalos ígneos, em relinchos de eternidade, transpunham os umbrais da estrebaria verdejante, abrindo veredas para os campos

O tempo órfico e inflexível circundava o espaço em espirais de ouro, e nas órbitas inefáveis da manhã, a melodia abscôndita dos astros se desvelava em cântico inaugural.

E tudo, em combustão mística, feneceu no instante de sua própria origem: o feno em labaredas, a noite em ascensão,

e o sol, em último clarão,

reencarnou na vastidão do ser e no antanho dos círculos insondáveis, quando o éter ainda palpitava em silêncio de cristal,

o vinho arcano dos céus verteu-se em cálices de sombra, e o fogo oculto gravou seu selo nos ossos do tempo.

Ergueram-se colunas de névoa hierática, pórticos da noite em combustão seráfica onde os astros como lâminas apotropaicas

rasgavam o véu da matéria em arabescos de ouro negro

As águas primevas recitavam cifras abissais, cada seixo guardava o oráculo dos abismos, e no sopro gélido das raposas estelares

ressoava o cântico interdito das constelações eis que os corcéis ígneos das estrelas em relinchos de magma e aurora, atravessaram os umbrais do não-ser, trazendo consigo a música cifrada do nascimento da luz elementar

O tempo, em órbitas cabalísticas, traçava mandalas de fogo sobre o espaço; e nas suas esferas melódicas, a manhã se erguia como hieróglifo ardente de uma verdade jamais pronunciada

Tudo era rito, e tudo era enigma o feno em pira votiva, a treva em clarão litúrgico, o sol em êxtase abscôndito

E quando a eternidade se voltou para si mesma, no instante inefável do retorno, a aurora coroou os mundos ocultos com o selo indecifrável do ser

Suspenso, o firmamento vertia clarões azuis sobre os vales, as estrelas, como lâminas antigas, fendiam o véu da noite

O tempo pássaro invisível permitia que eu tocasse o silêncio e me erguia em claridade.

Nas margens do rio secreto, corriam os cavalos de fogo, ardentes, exalando orvalho em cada relincho sagrado, e o dia nascia das suas crinas como aurora primeira, a luz inaugural rasgava os campos e devolvia-lhes a eternidade

Eis que o vento, em sua órbita translúcida, trazia cânticos remotos de abismos e marés, e tudo fluía em círculo perfeito as nuvens, os feno flamejante, o astro cansado até que o sol, desfazendo-se em ouro