Escritas

Hoje Choveu

Everson Francisco da Hora Silva

Hoje choveu,
e eu lembrei de quando era criança,
no sítio da minha vó, na serra,
cercado de mata.
Tudo era fantástico.

Quando a chuva chegava,
já buscávamos a roupa de frio.
Eu me deitava na rede,
perto da janela,
observando os pingos caírem ao chão,
formando poças d’água.

Pela janela entrava
aquele frescor divino
que trazia paz.
Depois, o frio,
mas o cobertor me aquecia.

Como não lembrar também
do cafezinho quente,
do pão caseiro,
nesse tempo de chuva?

Naquele frescor divino
eu me sentia vivo.
Era tudo tão lindo,
e só queria ali permanecer.
Para mim, todos os dias
deveriam ser nublados,
com chuva
e até trovões.

Minha vó dizia
que o trovão era
“Deus ralhando com o mundo”.
Tão simples,
mas sempre falando de Deus.
Depois compreendi
que era apenas um fenômeno natural:
sonoro,
imponente,
e bonito também.

Enfim, não sei vocês,
mas a chuva sempre me recorda
vida e paz.
Ela é fresca,
mas me traz calor —
não o do corpo,
mas o da alma.

Ah, como amo a chuva!
Ela faz as cores mais vivas,
a alma mais leve.
Certo que é obra de Deus:
quão maravilhoso é ver chover
no jardim,
no mundo,
em casa,
em mim.

Lembro ainda:
quando chovia,
eu corria para sentir
seus primeiros pingos.
Era tão bom!
Depois voltava para casa
e já entrava no banho,
sem que minha mãe percebesse.
As roupas molhadas?
Colocava na máquina
em segredo.

Essa é a chuva para mim:
um recomeço de memórias,
uma criança sonhante
que hoje sorri sem perceber,
quando sente novamente a chuva
penetrar na alma
e a tornar feliz.
 

Everson Francisco da Hora Silva