O Risco do Viver
A vida começa no instante em que escolhemos. Às vezes, sem saber. Outras, com medo. Mas sempre com a certeza silenciosa de que o tempo vai transformar tudo em memória. É curioso como a lembrança tem o poder de moldar os contornos do que fomos, como se o passado se tornasse um quadro pintado a várias mãos: as nossas e as de quem amamos.
O amor, aliás, é um desses traços firmes. Ele cria vínculos, desenha mapas invisíveis entre os corações. Mas não é feito só de afeto calmo. É também experiência, é atrito. É nas imperfeições do convívio que aprendemos a esculpir a paciência e a esboçar a empatia. O calor humano não vem da ausência de conflitos, mas da disposição de continuar perto, mesmo quando tudo parece distante.
Família é esse lugar estranho onde pertencemos antes de entender o que isso significa. É o primeiro desenho que fazemos da vida, com traços tortos, mas sinceros. Crescer é colorir esse desenho com poesia: ver beleza no banal, encontrar arte no gesto simples de ser.
Intenção é o esboço do pensamento. Fazer é cuidar do traço. Reconhecer é olhar com atenção para o que já existe e desenhar com mais clareza o que ainda falta. Pintar é expressar com coragem, mesmo quando a cor não sai como o esperado.
Ensinar é doação. Aprender é humildade. Ambos se confundem quando estamos dispostos a viver com o olhar aberto. A vida, afinal, é um grande caderno de rascunhos — cheio de tentativas, manchas, borrões. Mas também de traços únicos, que só existem porque tivemos coragem de riscar o papel.
Viver é isso: um exercício contínuo entre olhar e fazer, entre cuidar e criar. E talvez, só talvez, a verdadeira arte da vida esteja em aceitar que o desenho nunca estará terminado — e ainda assim continuar desenhando.
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