Escritas

SONHOS DE POETA - I

José João Murtinheira Branco


Filho de um contentamentodescontente,

flutuo mo sonho de símbolos e lavras.

Onde enigmático se esconde essesilêncio

de figuras que marcham, entrando naspalavras

cínicas, déspotas, que subjugamrudemente,

esmagando o verbo pelo prestígio damorte.

Escorre-me letras dilaceradas pelas narinas e boca,

cuspo palavras no papel amarrotado.

Encarno o personagem da poesiamaldita,

só e penitente, arrasto-me até à horada morte.

Mastigarei visões, porfiando retalhosde vida louca,

metade de mim é verso, num gritoesconjurado.

A outra metade é prosa corrida, malescrita

lida e relida na mente, no silêncioamargurado.

 

Os poetas perseguem os sonhos e aeternidade

 a utopia da pedra filosofal, decantada naalquimia

uma névoa luminosa dentro da nossaobscuridade

o desejo de transcendência, o delírioda verdade

que envolve a existência, embriaga enos vicia.

 

Tiram-nos o sonho, a tristeza imperae não resistimos,

tiram-nos os versos o ar acaba e nãorespiramos,

tiram-nos o amor o coração para e nãoexistimos.

Não seria possível sonhar se ospoetas não nascessem

e as lágrimas morressem.

 

João Murty