Escritas

Acordar

Ludmila Martins

Na boca um amargo,

no peito um vazio 

que nem mesmo às peças de Chopin

são capazes de preencher. 

 

“Nocturne Op.9 No. 2”

 

De peças e músicas não entendo muito,

sei mesmo é de sentimentos. 

Transbordar é algo tão natural a mim, 

que às vezes tenho a sensação de que é coisa de gente. 

 

Gente sente demais 

que transborda.

Escorre pelo chão assim com se fosse água,

água não,

escorre assim como se fosse sangue 

ou vinho, parecidos demais para saber.

 

Meu corpo parece que quer morrer

mas minha alma tá viva como nunca. 

 

Até corrigiria o “tá”

Assim como fiz no “para” em vez de “pra” 

mas essas coisas, essas palavras que vêm do coração a gente 

tem é que manter assim como elas te aparecem. 

 

“que raso” eu penso.

mas logo despenso também. 

Que me importa o que essa gente pensa. 

Não gosto de gente que pensa, gosto mesmo é de quem sente. 

 

“Tô escrevendo uma coisa” 

“É prosa ou poema?” 

Não sei, acho que deve ser sentimento demais reprimido. 

 

O mal de gente triste é esse, 

sente demais as coisas. 

Pior é quando esses decidem que vão escrever. 

Sente mais que escreve. 

 

Nos últimos dias tenho lido livros demais,

só livro triste.

triste não, coisa de coração mesmo,

com coração quero dizer coisa de sentimento,

coisa de alma. 

 

 

Tô precisando mesmo é de coisa fútil, 

essas coisas que não demanda muito do que é 

de mais íntimo nosso. 

Drogas, sexo, bebidas (essas coisas)

Mas ano passado depois de uma overdose 

prometi para minha mãe que pararia. 

E parei mesmo. 

Aí fica difícil demais suportar o fardo da vida. 

Pessoa, Clarice, Vinicius não ajuda,

eles dão é combustível pra essa angústia.

Mas eu gosto de não me sentir sozinha nesse mundo

 de eternos confusos desesperados.  

 

Ano passado meu corpo parou. 

Senti algo esquisito.

O mais próximo do Nada que já pude 

compreender nesses 26 anos de vida. 

Ou era o Nada ou era o tal Deus que minha mãe 

vive dizendo que um dia me salva. 

 

 Será que salva? 

Acho mesmo é que qualquer hora dessas ele me mata. 

Pelo menos minha mãe ficaria tranquila 

achando que eu estaria descansando nos braços dEle. 

 

Prometi que iria à igreja com ela qualquer dia,

ela me disse que preciso aceitar a tal salvação.

E eu vou

só assim ela me deixa em paz. 

 

Não acho ruim ela querer me salvar, 

mas até hoje não sei do que ela tanto me salva.

Mas ela sempre me diz que tá me salvando de mim mesma. 

E um dia eu respondi a ela “então eu morro e tudo se resolve” 

chorou a noite toda 

de soluçar,

aí desisti de cortar meus pulsos. 

 

Mas acho que foi mais por mim do que por ela. 

Não mereço nem morrer. 

é pouco demais, é fácil, é rápido,

 é agradável. 

Penso mesmo é que tenho que sofrer. 

 

No fim parece que eu penso demais, 

e se eu não pensar em nada?

( já estou pensando em não pensar)

 

Preciso de um banho e um café