Escritas

Despedida

Ludmila Martins

É tarde demais para ti,

Vejo que a vida já escapa pelos teus olhos. 

Oh, não desista, quem sabe ainda há tempo. 

 

Abraça-me.

 

Dê-me sua dor que és minha também.

 

Abraça-me. 

 

Me sinto de novo criança. 

Em teu colo sempre foi o meu lugar, 

mas agora é tão tarde.

Oh céus como é tarde! 

 

Abraça-me.

 

Queria eu tanto que houvesse tempo para nós. 

Mas o sol não brilha mais tão forte para ti. 

 

A angústia da morte te corroi, 

sinto eu aqui todo esse assombro em teu peito. 

Este abismo que tu criaste agora é tão nosso. 

 

Abraça-me.

 

Teus olhos cruzam com os meus e neste momento 

somos tu e eu crianças.

Desculpe-me mas não pude evitar que lágrimas caíssem,

apesar das semelhanças sempre se saira melhor em esconder toda esta dor. 

 

Oh, abraça-me! 

 

Eu lhe perdoo, mas não posso entregar-te uma palavra de perdão sequer. 

E sinto muito, mas compreendes que me era impossível te salvar a tempo?

 

Te amar dói, pois lutei tanto para odiar-te. 

Antes que teus olhos virem escuridão, permita-me olhá-los. 

Deixe que eu capte tua alma, que confesso fazer parte da minha. 

 

Essa vida nos destruiu, 

mataram nosso amor tão cruelmente, 

e agora já é tarde.

 

Só lhe peço que, 

antes que a eternidade te chame como voz rouca

 

Abraça-me.