Comentário sobre Giuseppe Arcimboldo
É importante notabilizar que a pintura já existia antes do Renascimento, porém somente a partir deste período histórico ela atingiu um grau bastante elaborado de composição, quando pintores geniais criaram a perspectiva linear, aprimoraram o uso de luz e sombra (chiaroscuro) e utilizaram a técnica de pintar com óleo sobre tela; buscando trazer em suas obras o homem como a figura mais representativa, por ter agora um papel central na temática utilizada, dando início ao humanismo nas artes visuais. No período do Renascimento, pode-se destacar a contribuição inovadora do pintor italiano Giuseppe Arcimboldo (1526 - 1593) na representação das plantas no imaginário humano. Com uma maestria singular, Arcimboldo pintou uma série de quatro quadros, que ficou intitulada com o nome de As Estações. Por meio destes retratos alegóricos compostos por elementos típicos de cada estação, este pintor representou as quatro estações do ano: – primavera, outono, inverno e verão. É importante destacar o estilo escolhido por esse pintor, pois ele foi associado ao Maneirismo, que em resumo foi uma corrente artística que buscava explorar formas mais complexas, artificiais e até fantásticas. Nessa série de quatro telas, o elemento fantástico predomina.
Repare, leitor, como o pintor dispôs nas telas os elementos vegetais, guardando cada imagem uma composição peculiar às características das estações do ano; e, por elas serem uma produção artística do Renascimento, os contornos do rosto humano são representados de múltiplas formas, deixando clara a importância do humanismo naquela época. As plantas, então, deixaram de ter um caráter alheio aos homens e, passando a formar os rostos humanos, mostram-se presentes na própria constituição de seus corpos; semelhantes aos alimentos vegetais consumidos que, depois de processados no organismo vivo, contribuem para a formação dos tecidos e do líquido sanguíneo. Além disso, a dicotomia exposta pelas telas da primavera e do inverno, por estarem em polos extremos, merecem uma análise mais aprofundada. Sendo assim, no quadro da primavera, é possível ver uma vivacidade absoluta, estando presente nas folhagens e especialmente nas flores, que têm cores vibrantes: isso acontece porque na estação da primavera ocorre a floração para muitas plantas, já que as condições climáticas favorecem a reprodução. E, também, leve em conta que neste quadro o pintor Giuseppe Arcimboldo retratou uma linda jovem, que possui, à sua frente, toda uma vida a ser descoberta; sendo a beleza dos arranjos uma característica da fecundidade marcante desta figura. Enquanto isso, no quadro do inverno, não é possível ver a mesma vivacidade: ao olhá-lo na verdade o observador é tomado por um sentimento de aversão e horror, pois ele não guarda uma beleza exuberante. Arcimboldo, então, buscou retratar neste quadro um homem velho, no final do seu vigor físico, por ter sido extenuado no decorrer da vida. Seu corpo e rosto são formados por um tronco cheio de escoriações e inchaços, representando suas rugas. A orelha e o nariz são formados por pedaços de tocos lascados do que já foram um dia galhos vívidos e vê-se diversos galhos menores, despontando do queixo e do alto da cabeça, representando assim uma barba rala e poucos cabelos no couro cabeludo – aspectos comuns à velhice dos homens. E, também, vale dizer que os contornos deste rosto são cansados, pois buscando representar o período de dormência e de danificação das folhas, galhos e raízes pelas geadas de inverno, o pintor escolheu dá à figura uma feição triste e inválida. Os limões colocados entre o peito e o pescoço e algumas folhagens da cabeça, por serem as notas de vida desta figura, apenas representam uma sombra de algo que já foi belo e que agora vive em meio à fealdade. Já de modo diverso aos dois exemplos anteriores, o leitor não encontrará uma dicotomia entre os quadros do verão e do outono, sem incidir numa ilusão de entendimento. Porque estas duas estações do ano comportam mais semelhanças do que disparidades: a fartura é comum às duas, encontrando nelas um período de estoque de alimentos vegetais. Portanto, o ponto principal e o elo que liga as duas entre si, ao contrário do que se pode pensar, é a transição entre essas estações que não ocorre por uma ruptura clara no equinócio de março do hemisfério sul, mas por uma continuidade de processos naturais ligados à produção e ao estoque de alimentos vegetais. Por isso que Arcimboldo pintou ambos os quadros com abundantes alimentos usados na subsistência humana, a exemplo das uvas, maçãs, ameixas, peras, abóboras, milhos, cerejas e cogumelos. Abordando, assim, de um modo inovador a temática das quatro estações do ano, personificando nelas a humanidade.
* Pós-escrito: procure encontrar as imagens das quatro telas de Arcimboldo para uma melhor compreensão do texto; elas podem ser encontradas facilmente numa rápida pesquisa na internet.
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