Memória
Ainda sou capaz de lembrar, na verdade lembrei-me rapidamente nesta manhã, de um momento primoroso de minha infância.
Um dia meu irmão mais novo foi presenteado com um conjunto de peças, de variadas cores e moldadas à maneira de animais marinhos, com a finalidade de fazer desenhos com relevo na areia do mar. Contudo, posso afirmar que nunca as usamos em local adequado: – as peças nunca foram levadas à praia.
Elas ficavam espalhadas pela casa ou, na melhor das hipóteses, eram usadas como brinquedos dentro da própria casa; desvirtuadas assim de suas verdadeiras funções.
A minha infância também é marcada por horas imensas preenchidas com jogos no video game em tardes e manhãs perfeitamente solitárias.
No entanto, o meu círculo de interesse hoje é outro. Posso dizer que sou encantado todos os dias pelas riquezas da vida, principalmente se estas riquezas vierem escritas numa folha de papel...
(Uma das odes de Horácio, um poeta da Antiguidade).
Lembra-te de manter nos maus momentos,
e não menos nos bons, o equilíbrio da tua mente,
apartando-a dos excessos da alegria,
tu, Délio, que hás de morrer,
quer se triste todo o tempo tiveres vivido,
quer se, reclinando-te num remoto relvado,
durante os dias de festa reconfortado te tiveres
com um seleto vinho falerno.
Por que razão o gigante pinheiro e o alvo choupo
os seus ramos em acolhedora sombra adoram unir?
Por que se envida a fugidia água
em se agitar no sinuoso leito?
Manda para aqui trazer vinhos, perfumes,
e as demasiado breves flores da amena rosa,
enquanto o momento, a idade,
e das três irmãs os negros fios o permitirem.
Então deixarás os bosques que compraste, a tua casa,
a tua vida que o flavo Tibre banha, tudo deixarás,
e um herdeiro senhor se tornará
das riquezas que até ao cimo amontoaste.
De nada interessa que rico, renovo do velho Ínaco,
ou que pobre, de baixa e humilde família,
sob este céu te tenhas demorado:
vítima és do Orco, que de nada se apieda.
Para um mesmo sítio todos nós somos forçados a partir,
mais cedo ou mais tarde, agitada na urna, de todos nós
a sorte há-de sair, colocando-nos na barca
rumo a um eterno exílio.
(Trecho de minhas anotações).
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