Escritas

INSENSIBILIDADE DO CAOS

José João Murtinheira Branco
 Estava o homem noprincípio…

Não vendo que ali ao lado, a fome habita e tudo se agita em ansiedade
Mas ele de olhos abertos esconde as mãos tapando a verdade.

Parte-se o cordão da harmonia
É solta a besta que em seu desejo
Sacia a fome no seu frio beijo
Em ondas de crueldade e mordomia

Soprando a terra com ar revolto, o vento gélido em céu que arde
Sem rumo, sem destino, como um gigante que acordando tarde
Segue a saga das profecias, nas profundezas de Babel
Actor sinistro e cruel, que no desempenho do seu papel
Vai calando os risos humanos, fracos sem substância
Que numa patética ignorância, em ânsia de bem viver
Vão destruindo o que resta e pouco ou nada há a fazer.

Estava o homem no princípio…

Da vida me alheei, obscura monótona. Raspo uma mão cheia de nada,
Com sacra flâmula abunda a miséria e os horrores da fome perdura e não acaba
Do rito obsceno do dia-a-dia gela o frio e o medo não tem horas nem morada.

Ancestrais profecias primitivas
Num cenário de holocausto adiado
São palco de um critério malfadado
Dos genes, maléficos narcisistas

Pensamentos de fé mitigados
Olhos cansados, profundos angustiados
Trazem imagens de óperas alucinantes
Dos vícios e tempos desesperados.

Funde-se a luz num eclipse
Devorando o bem que pouco resta
Resto de um mundo podre, que não presta
Prenúncio da hora do apocalipse

Remorso, que queres abraçar o céu num gesto fraterno
Absorve em ti, toda a dor do universo
Já não mora aqui o poeta eterno
Partiu na demanda deste triste verso.

Estava o homem no princípio…

Eterna Deusa da poesia, que não seja o princípio do fim
Não amortalhes a luz perdida, canta e declama sobre as almas
Porque a força e sensibilidade dos teus poemas, é o querer, é um sim,
Penitencia este tempo, onde o remorso já se senta nas noites calmas.
Num gesto de amor, bebe o cálice do mal, exorciza tanta dor,
Nos teus jardins de pedra em doce esquecimento da oprimente vida
Colhe a flor do desespero estende o áureo escudo de deusa maternal
Ao som da flauta da harmonia sepulta o holocausto no mar do sal.
Amortalha o vendaval e a dor ingente se esfuma no lado escuro do vento.
Talvez as mentes se abram e a luz da poesia seja a génesis de um novo alento.

João Murty
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