Escritas

a vida é súbita

yuri petrilli
súbitas foram todas as flores
pelos caminhos colhidas,
e nunca palpáveis à distância:
no ponto em que surgiram,
existiram,
e traduzidas não cessaram.

nem foram catalogados
em futurologias
os cantos das aves submersas
em folhas de verde silêncio,
que imprescindíveis
e imprevisíveis
o fogo dos poentes sustentaram.

agora,
a sombra encobre
a encruzilhada.
o silêncio não acalanta,
a voz não chega à superfície,
e entre as pedras espalhadas
pelos incompreensíveis poros
que distam presente e memória,
resquícios de riso
buscam o riso,
porém se quebram e calam.

aves com asas de faca
rodeiam a morta flor
delimitada
dentro da palavra flor.
o desperdiçado pólen
pesa sobre a mão
que conteve a abelha.
a cidade é grande,
mortalmente pragmática.
é fácil perder 
as flores.

mas a poeira nas botas
remete à permanência da estrada.
entre uma pedra e outra pedra,
súbitas são as flores.

mas o coração sabidamente vermelho
pulsa alinhado
às cores das pétalas.
súbitos são os pássaros.

a mim,
desaprendido do ofício da alegria,
não seja, talvez, tempo
de desprender-me do ofício
da esperança.
a vida é súbita,
entre a inflorescência e a semente arruinada,
lampeja e desaparece,
e então regressa,
sempre à espera de nascer.
uma centelha rompendo
um caminho sem luz.

velha vida, lembrança da vida futura,
porque te amei – não mais te amando – ainda espero.
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