Escritas

Lancinante

Eduardo Becher_2
Olhe nossa vida fatiada, meu amor. 
A cadência desses traumas
dilaceraram nosso sorriso sincero?
As fendas em nossas almas
verteram o sonho da alegria inocente?
São os olhos que deflagram 
o quanto desconfiamos de tudo e todos,
crianças ininterruptas
encarando a ausência dos pais na cama fria,
quando surgem pesadelos.

Olhe com que força me abraças, minha vida.
Como se eu fosse essa ponte
sobre o lago da sua própria ansiedade.
Acontece que me afogo
e ninguém me escuta convulsionar.
Sei bem que tu escutarias
se não fosses como eu, uma colcha retalhada
pelo tempo e pelo mundo.
E agora, meu amor, o que haverá de nós?
Pássaros sem canto algum.

Olhe para os meus olhos, doce andorinha.
A fratura em nossas asas
não apaga o traço dessa estranha verdade:
permaneces tão sozinha
quanto eu permaneço inseguro e covarde.