Natal de 23

Fogos. Fogos de Natal.
Lá fora nascem deuses,
aqui dentro nasce angústia.

Cresce, junto ao entalhe,
no mármore da volúpia,
nomes para além do léxico.

Alimentam-se, alegres,
todas as revoltas criadas
pelo espasmo do efêmero.

Evanesce, sem quinhão,
a razão que rumina
na relva do vexatório.

E ainda há fogos de Natal.
O tintilar etílico avulta
folhas suspensas na vida.

Comparecer é rejeitar
o arrancar das folhas
no ramo da madureza.

Suspirar e pressentir
o romper da atmosfera
pela força do receio.

Gargalhar como aquele
que pensa ser amado
pelo amor na rotatória.

Santo Natal. Fogos. Pólvora.
Parestesia nervosa
sob a ansiosa epiderme.

Sonhos encanecidos,
roupas enfarruscadas
de vermelho balsâmico.

Quando é que seu abraço
tornou-se dissimulado
a ponto de fervilhar?

Libertai-me de tudo.
Venda meus olhos oblíquos
para ocultar-me o preço.

Barrigas enormes. Soluços.
Assina-me a dispensa
de Natal. Saudoso Natal.

Meu coração-presépio
pulsa o nascer da aurora
em horizontes incólumes.



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