Escritas

I-XCI Jaezes de vida e morte

Murilo Porfírio
Cada podre lembrança tira-me o fascínio por esperança,

como o fascínio dos mortos-vivos que me pedem abrigo:

Fiz-me correto ao perdê-los nos prantos,

pois, hoje, mal os ouço enquanto me afundo em planos.

 

Que vaidade duvidosa,

construí-me diante da civilidade e da honra,

tornei-me muito com o pouco que me colabora.

Com poucos momentos lembrei de ti por horas,

fazendo busca das verdades, procurando evidências

nas nuances dos ares.

 

Mas que moribundo é a vida,

sem perigo, me abati, e curado fui-me sem sentir.

É loucura da cabeça humana,

peguei mais dos meus irmãos

e pouco da mãe em eterna oposição.

 

Era por conta dos monstros no caminho,

por conta da vizinhança sem-abrigo,

por fazerem-me de ingênuo em perigo.

Agora mal sobrevivo do luxo entre privilégios,

tenho tanto que me jogo sem um mísero critério.

 

E há quem diga que fácil foi existir,

que não foi sacrificante persistir,

a culpa é minha forma de agir:

Sereno, mas imprudente, apaixonado e carente,

há tempo que mais amo do que me faço insolente,

mas o vício de ter-me aqui possui-me sem me ver persistir:

Quase perto do fim, temo a chacota que vira a mim.

Que os sonhos me tirem da dor, para que eu me recomponha no amor.