Mãe

Onde estás mãe!
Não sabes que caí e magoei os joelhos?
Vê como estou cansado,
Quando corro com os amigos no colégio
São os teus olhos que trazem o sorriso ao meu rosto
E o sabor dos teus beijos que me curam das lágrimas que
verto, angústias da última queda nas brincadeiras do fim
da tarde.
Depois, apareces triste, de olhos murchos, como se eu
tivesse culpa por estares assim, como se tudo o que percorri
não tivesse sentido!
Não compreendes o brilho a cintilar nos meus olhos no
regresso a casa...
Nem as minhas birras por querer ficar mais tempo com
os amigos para te fazer ciúme e tu dizes que eu sou uma
criança teimosa.
Eu apenas quero disputar o teu tempo.
Impregnar a tua memória de mim.
E à noite!
Sabes que ainda tenho medo do escuro?
As cortinas, o luar incandescente redescobrindo monstros
dos contos de fadas, das televisões substitutas,
Dá-me a impressão de que há vazios que desconheço.
Fico inseguro, com medos abruptos na noite... Sento-me
na cama quando desperto aflito.
Tenho vontade de correr para junto de ti
Mas receio que não estejas à minha espera.
Tu dormes descansada e eu às vezes passeio pela casa
E entro no teu quarto e em silêncio
Afago-te o rosto
Deito um dos meus bonecos ao teu lado como se fosse eu,
Tu não percebes que era eu que desejava estar ali quando
acordas
E achas graça,
Eu finjo rir e percebo que não entendes nada do sonho
das crianças
Dos seus pesadelos e medos,
Dizes para que eu cresça depressa e faça tudo como se
fosse grande,
Mas eu tenho medo de ser grande!
Os grandes vivem tão sós,
Não percebem os desejos porque anseio
Nem as linguagens das coisas que fazem parte da vida.
Onde estás mãe?
Quando eu percebo que afinal também se morre
E não entendo a razão do mundo
Porque o meu amigo... Morreu!
Fico desesperado
E procuro-o em todos os caminhos que partilhámos
Sem perceber que ele partiu
Para a eternidade,
Dizes-me apenas que ele foi com os anjos bons
Mas que raio de bondade pode haver em alguém que
nos leva um amigo
Como posso entender que quem me rouba quem eu
amo é bom e gosta de mim?
Onde estás mãe
Nesta vida que percorro
Como se fosse uma tarde
E quando escurece
Não sei como quebrar este silêncio
Que há dentro de mim...
Sabes mãe,
Tenho aprendido que há coisas que nunca mais se
repetem!
Sinto que algo em mim se perde continuamente
Mas que tu não tens culpa,
É algo que vem de longe
Talvez já velho como o tempo
De uma mãe antiga que nunca encontrou o filho.
Mas tu mãe
Permanecerás nos traços dos meus pequenos gestos
Na oscilação suave e acrítica dos meus passos
Por detrás da memória de todos os meus afetos.
Estarás no mesmo jeito de eu estender os braços
Ao amor que um dia terei.
Mãe
Quando te encontrar afinal
Já te deixei...

(Àquele menino que estende os olhos e procura,
Procura uma explicação para os pássaros...aqueles que
respondem ao chamamento do inexplicável.)

1999, Cascais
C. A. Afonso
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