Ode à poesia
Sentado por sobre a areia
Fresca e suave
Recordo o velho tempo
Em que falámos
Do futuro,
Tempo com mãos de asas de ave
De nome liberdade.
Será que o acordámos?
Talvez (que) sim.
A ave pousou suavemente
Nos ombros do meu sonho
Agreste e indomável
E vi-me,
Vi-nos misturados na vida com a gente
Que não tem sonhos e arrasta os nossos.
É provável,
Que um dia a maré encha
E inunde a areia
Onde tu estás tranquila,
A pensar o passado,
E esse sonho se reveja (perdido)
Na maré cheia
Desfeito sobre as águas
Como um barco (naufragado)...
E que tu fiques
Inundada de dúvida e espanto
Sobre as razões
Do teu alheamento ao sonho:
O que contemplas tranquila
E ausente a um canto
Com tâmaras nos bolsos,
Num deserto infindável e medonho
Tu,
Recanto perdido dos Poetas que enlouquecem
Nesse local onde o sonho é vivo,
E que não existe
Para mais ninguém
Só eles acreditam e adoecem
E morrem para o mundo,
É a sorte de quem persiste
Em cumprir essa ideia
Amarelecida ao vento
Já com séculos de vida,
E mata noite e dia.
Essa ideia
Que a poucos leva ao firmamento
Mas que vale a pena vivê-la na terra:
Poesia...
Tu és
Aquela enxerga de palha onde eu
Repouso e sonho
Esse sonho terno e suave,
Que me descobre
Em cada palavra e desceu
Até mim
E transbordou-me e já não cabe
No que eu sou
E estendo-o nestas palavras rasgadas
Ao vento,
Ligadas à memória como a terra
À sepultura
Brisas de séculos cansadas
A adormecer os olhos
De quem as lê e erra.
Tu és essa dor humana
Que vela o meu sono
A que desperta o espanto
Da realidade exterior
Dor que esventra
E depois deixa ao abandono
Dos algozes vorazes,
De outras formas de dor;
És tudo o que consome a vida
Sem explicação,
Sentido dos passos,
Sem sentido e sem cessar,
A voz trémula ao espelho,
Os dedos no coração
Os olhos no infinito,
Acabados de fechar.
1995, Sintra
C. A. Afonso
Fresca e suave
Recordo o velho tempo
Em que falámos
Do futuro,
Tempo com mãos de asas de ave
De nome liberdade.
Será que o acordámos?
Talvez (que) sim.
A ave pousou suavemente
Nos ombros do meu sonho
Agreste e indomável
E vi-me,
Vi-nos misturados na vida com a gente
Que não tem sonhos e arrasta os nossos.
É provável,
Que um dia a maré encha
E inunde a areia
Onde tu estás tranquila,
A pensar o passado,
E esse sonho se reveja (perdido)
Na maré cheia
Desfeito sobre as águas
Como um barco (naufragado)...
E que tu fiques
Inundada de dúvida e espanto
Sobre as razões
Do teu alheamento ao sonho:
O que contemplas tranquila
E ausente a um canto
Com tâmaras nos bolsos,
Num deserto infindável e medonho
Tu,
Recanto perdido dos Poetas que enlouquecem
Nesse local onde o sonho é vivo,
E que não existe
Para mais ninguém
Só eles acreditam e adoecem
E morrem para o mundo,
É a sorte de quem persiste
Em cumprir essa ideia
Amarelecida ao vento
Já com séculos de vida,
E mata noite e dia.
Essa ideia
Que a poucos leva ao firmamento
Mas que vale a pena vivê-la na terra:
Poesia...
Tu és
Aquela enxerga de palha onde eu
Repouso e sonho
Esse sonho terno e suave,
Que me descobre
Em cada palavra e desceu
Até mim
E transbordou-me e já não cabe
No que eu sou
E estendo-o nestas palavras rasgadas
Ao vento,
Ligadas à memória como a terra
À sepultura
Brisas de séculos cansadas
A adormecer os olhos
De quem as lê e erra.
Tu és essa dor humana
Que vela o meu sono
A que desperta o espanto
Da realidade exterior
Dor que esventra
E depois deixa ao abandono
Dos algozes vorazes,
De outras formas de dor;
És tudo o que consome a vida
Sem explicação,
Sentido dos passos,
Sem sentido e sem cessar,
A voz trémula ao espelho,
Os dedos no coração
Os olhos no infinito,
Acabados de fechar.
1995, Sintra
C. A. Afonso
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