A ordem das coisas

Mãos que surgiram da obscuridade de um
Tempo nunca semeado, a minha
Raiz do poente por sobre a espuma dos olhos...
Solidão que se apaga à beira do corpo
Inacessíveis crepúsculos de uma tarde que nunca se derrama.
E é o musgo dos dedos a tactear as margens do silêncio
Que reage ao unânime dos momentos.
Revolta que se extingue em mim sem rasgar o véu de
De todas as histórias que me inventam
Terra sem domínio onde os gritos não têm eco nas luzes
Onde todas as cinzas esventram o Sol,
Incolores as janelas árduas perscrutando os silêncios,
Abat-jours tecendo de lágrimas os eucaliptos na
Dinâmica dos pássaros à-beira-do-sono... gritos.
É isto das luzes extintas rejuvenescendo a manhã acesa
Por detrás dos olhos
Realidade incrédula, a outra claridade de mim ardendo nas
Criptas da una memória...
Séculos de herança dentro e fora dos olhos
Esses monstros acesos por detrás da infância.
Contar pelos dedos os momentos em que se repetem no mesmo erro
Hirto, um sol incessante no arrefecer da tarde
O quarto que emoldura os dias.
Sonhos que guardo no arco da porta.
Regresso. Regresso e a manhã acende-se de novo
De novo o irrepetível gesto
Na exatidão dos segundos
Os cabelos viciados pelo som da escova
Música serpenteando desde os mamutes errantes
O eco da espada mordendo a carne por entre os carros e
os pássaros...
Inventaram-me este Deus de modelar o corpo
E cegar de gestos instintivos
A vida neste ápice de agoras.
Mais tarde... Mais tarde arderá o silêncio dos genes
Rarefeitos...
Um outro Deus acenderá células
À sombra de outro sol
Aos domingos não haverá descanso porque a verdade é
una
Amarga como o sonho que se esqueceu no espelho da
primeira memória
A verdade
Passageira errante entre cinco sentidos finitos
Que desde a infância inscreve de angústia os lábios e os
olhos
Seio que adia a solidão para o fim da manhã
Joelhos regressando ao quarto, procurando a mamã
A luz que se apaga
“Dorme meu menino é estrela de alva”...
Esta família vai tecer-te as grades da prisão lá dentro
De ti... E terás a ilusão de que és livre
Nesta liberdade que existe desde os mamutes...
Desde que os seus ossos aprisionaram os primeiros cabelos...
Que outra explicação existe para os salmões
Essa ânsia de regresso ao passado da vida
Barco ao mar, o Cabo Bojador – Gil Eanes
Gesto que tece de manhãs cada asa
Irrepetíveis os olhos no ocaso das dunas
Crepuscular o tecido que reveste o gesto
Que traça o caminho da interioridade
Espelho occipital inquebrável
Construtor de todos os segredos inimagináveis
Gatinhar no silêncio imperfeito
Do quarto à sala, à cozinha apetecível
Gavetas que ocultam invioláveis segredos
Aquele gesto da boca repetido fora da mamã... Puxando
pelos dedos.
Ninguém compreende o meu grito
Vou conquistar este espaço que é meu... Mas em silêncio
Há sons que matam o movimento
Velhos de anteriores Restelos
Não quero esse chapéu de realidade ancestral
Procuro a vida de olhos fechados... No tato
A ferida matinal, o meu retrato.
Puzzles que retalho aos pedaços
Só desfeitos têm significado (sem desenho-cortes)
Quero desenhá-los e pintá-los à minha medida, não
vêem?
Não, porque os vossos olhos foram tecidos de cidades
De exatidões de passos circunscritos na alma
De século a século há manhãs repetidas
Palavras de lâminas que esventram as feridas,
Cá fora procuro a ordem das coisas, o modelo,
Mas lá dentro morro
Nem eu compreendo esse grito-socorro.
Castelos... Pedra a pedra revolvo o muro
Cercando a casa
Há lagos, jardins e um barbecue
Amigos que a porta deixou entrar, não eu
Todos me afogam os olhos com memórias
De Deuses que estabeleceram a ordem das coisas.
Que dúvida abstrata me persegue de luz acesa
À que responde sem ter palavras precisas?
Falta-me alguma coisa que desabotoe a angústia
Mas sem a sublimar... Quero destruir, não criar!
Quebrá-la na própria carne da vida
No tecido, dormente entre os olhos e o corpo
O tato do silêncio.
Racionalidade adjacente aos olhos
Oníricos e intemporais desejos: Pearl Harbor a preto e
branco é mais real
Com sangue ao fundo...
Não tragas os venenosos, passa-lhes a unha
Esventrando a cor, riscas esverdeadas, sangrentas, COGUMELOS,
Cinza humilhando a voz. O tempo passou aqui velozmente,
Desmagnetizou a carne dos ossos. A fuligem
Do vento, cidade fantasma predestinada ao ocaso.
Nenhum gene prossegue
Chave extinta.
A memória ficou do lado de fora do muro
Aonde dói menos.
Tecer as letras reinventando o código dos sons
Lápis auricular proliferando no gesto
Repetido, em todas as manhãs inquietas
A dança de um Julho que tarda
Cíclico de um norte desejado em todas as fugas
Tudo é repetidamente ordenado
Oleiro ancestral do meu silêncio à-beira-do-quarto
A dor da partida e chegada à tarde.
Pente trincando os cabelos desde o mamute
Reduzindo o círculo dos olhos-óculos, olhar que não arde.
Punhal traiçoeiro da glória que devassa o corpo
Sangue imortal que implode,
Devir infante que guardado em ânforas de barro.
Deixem-nos sem norte
Deixem-nos à noite que explode, à lua de ser outro!
Onde há moinhos de vento cosmopolitas
Debruçando a angústia
Tecelões de miragens e loucuras anãs...
Deixem-nos palmilhá-la e beber de gatas o sabor das manhãs.
Regresso à orla do corpo onde construo o instante
A vírgula arrefece o crepúsculo das células
Fico aquém dos sentidos lá fora
Tudo o que procuro é irremediavelmente distante
cá dentro...

1997, Nuzedo de Cima
C. A. Afonso
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