Escritas

I-XX Jaezes de vida e morte

Murilo Porfírio
Pelo maçante cansaço encerro minha oração a Gotardo,

restando-me esta consciência angustiante de minha vida infame.

Sou eu um dos muitos que tanto lembram-me dela,

um dos que, com o bem, jamais justificam o mal.

Com o bem, jamais justificam coisa alguma,

e nada sobra de arrimo à vileza que me encosta.

 

Acabo-me assim enquanto a fome nada faz em mim:

fazendo da carência uma loucura, e o que invento um passatempo.

E é tarde, pois esperei os artifícios desta Terra,

feliz no presente por acreditar estar feliz no futuro,

comovido com o passado por vê-lo mesmo com muros.