EXTENSO DE NATAL TERROR
pauloazfogg
EXTENSO DE NATAL
CONTO DE TERROR - DE PAULO FOG
Vinte quatro de dezembro de 1984, ás 23:48 horas, em um bairro de operários no interior de SÃO PAULO.
Gertrudes termina de lavar as panelas na cozinha industrial de uma grande fábrica de alimentícios.
Osvaldo entra trazendo dois lebres e um frango grande.
- O que é isso Osvaldo?
- Acabei de pegar das mãos do senhor Geraldo.
- A velho safado, só por que ele sabe que tenho compromisso no terreiro do seu ZÉ.
- E agora, vamos deixar na câmara fria?
- Não, fique aqui, vou colocar água para ferver.
- Mais........
- Corre lá na casa de Janete e eles estando, diga que venha pra cá e me ajude com isso e traz o Damião esposo dela também.
- Tá certo.
Osvaldo deixa os animais ali na mesa e corre pelo pátio iluminado parando por poucos segundos para observar a belezura da grande árvore natalina da empresa decorada ali.
- Oh árvore linda que só, não me canso de ver. Ele se lembra ali de seu compromisso e sai apurando os passos em direção a vila, menos de 500 metros da portaria principal.
Gertrudes ouve o barulho de água a anunciar o fervor, olha para a porta aberta e nada deles, sente um arrepio lhe percorrer o corpo.
- Nossa SENHORA DO DESTERRO, livrai-me.
Ela fica de joelhos e ali segura forte seu patuá enquanto profere um canto africano que aprendera com seu avô já falecido há mais de vinte anos.
Osvaldo já esta perto da vila quando ouve passos largos atrás dele, ele pára e olha em um giro e nada, retorna para o seu destino e inicia uma corrida quando sente algo queimar em seu pescoço, um estalar, nem dá tempo para qualquer outra reação, logo seus olhos esbugalham, sua cabeça é separada do seu tronco, ambos caem ali naquele chão de terra arenosa.
Gertrudes fecha a porta do refeitório, deixa somente uma menor aberta de acesso a cozinha, vai ao telefone e liga na guarita, então percebe estar sem comunicação, telefone mudo, ela pega o cutelo grande e faz seus benzimentos ali e sai da cozinha, anda pelo pátio segurando o cutelo e de olhos rápidos em tudo, sente sua alma sair do corpo quando vê 3 gatos atravessarem seu caminho.
- Toma conta OXÓSSI. Agora mais firme em seus guias ela caminha por ali indo em direção a lavanderia, ali tudo trancado, ela olha pelo vitrô da porta e nada, caminha até o primeiro vestiário e também nada, quando sai do segundo para o terceiro.
- O que houve Gertrudes, dando um passeio a essa hora?
- Seu Lourenço, seu Lourenço, graças ao pai, o senhor esta fazendo sua ronda?
- Sim, por quê?
- Olhe, me desculpe ocupa-lo com isso, mais a cozinha esta sem telefone.
- Como assim?
- Fui usar e nada.
- Vamos lá ver?
- Sim. Os dois seguem para a cozinha e logo Lourenço avista o problema, os fios estavam soltos na linha aérea, provavelmente devido as últimas ventanias que ocorreram no local.
- Meu PAI XANGÔ.
- Fica tranquila, amanhã vamos ter pessoal na oficina e na elétrica, vou deixar tudo anotado e eles virão dar uma olhadinha e consertarão tudinho.
- Graças, obrigado seu Lourenço.
O homem olha para ela e percebe um certo tremor nas palavras de Gertrudes.
- Olha, se quiser fico aqui com a senhora até que termine seu trabalho, tudo bem?
- Se não for te atrapalhar, eu vou achar é bom, sabe hoje me deu uns bons arrepios este lugar, sabia?
- Mais por que ainda esta aqui a estas horas?
- Imagina, seu GERALDO deu aqueles animais ali para o Osvaldo, agora vou ter de limpa-los para congelar.
- Que animais dona Gertrudes?
A mulher olha para a mesa e nada do bichos ali, somente um rastro de sangue, ela grita e Lourenço vai até ela, eles decidem por seguir o rastro e param diante a câmara fria.
- Vou abrir.
- Por favor seu Lourenço, não abra, chame seus colegas primeiro eu não sinto algo bom com isso ai, por favor seu Lourenço.
- Tá certo.
Lourenço pega seu rádio e tenta contato sem sucesso, porém eles ouvem ruídos vindo de dentro do congelador industrial.
- O que esta havendo?
- Por favor seu Lourenço.
Gertrudes ali com o cutelo em punho, Lourenço abre o potente congelador e logo vê dois rádios jogados, mais a frente seus três colegas de guarda, corpos furados, rasgados, ele os reconhece.
- Meu Deus, o que esta havendo aqui?
Gertrudes corre para fora dali, ali no canteiro de hortaliças que ela cultivara, a mulher começa a vomitar, logo Lourenço vem a ela.
- Vamos?
- O quê, para onde, nós vamos morrer.
- Por favor, venha comigo, vamos ao escritório.
- Fazer o quê?
- Eles tem uma linha especial, subterrânea, não tem como corta-la.
- Será que existe isso mesmo?
- Sim, venha comigo?
- Vamos.
Ela segue o homem, só então percebe que Lourenço traz manchas de sangue em uma das pernas de sua calça.
- Por que parou?
- Seu Lourenço.
- Sim.
- Por que tem essa manchas ai na perna de sua calça, são tipo mãos, como se estivessem agarrado o senhor, o que houve de verdade senhor Lourenço?
- O quê, quais manchas? Ela aponta para ele, o homem olha para ela com um ar diabólico.
- Por que é tão fixa em detalhes, hein Gertrudes?
- O que é isso, o que vai fazer?
- Ia ser muito simples, só um empurrãozinho da escada e pronto, estaria morta igual ao seu Osvaldo, e olha nem deu trabalho em mata-lo sabia?
- Por que, por que seu Lourenço?
Nisso sai da escuridão uma garota de seus 15 anos, cabelos pretos longos, branca quase sem vida, vestido simples verde, magra.
- Quem é ela?
- Não se lembra de mim, vó?
- Não, não pode ser, você morreu, morreu afogada naquele riacho em MINAS GERAIS.
- Talvez sim, talvez eu tenha morrido ali ou bem antes daquilo, vózinha.
Lourenço golpeia Gertrudes que cai, deixando o cutelo caído ao lado no chão, a mulher é arrastada pela garota e o homem até o quarto dispensa, ali é colocada em cima de um colchão de solteiro enquanto Lourenço desenha um pentagrama no chão.
- Pronto?
- Sim.
- Vou preparar as velas. A garota rodeia o desenho com velas e logo Gertrudes é posta no meio daquilo.
Lourenço inicia um rito macabro de rezas e batidas de mão ao peito até que uma nuvem negra toma conta do lugar, mãos com unhas grandes saem desta e puxam o corpo e os dois para dentro de um portal, logo ouve-se o som de sirenes, as viaturas ja entraram na indústria e um braço de Gertrudes é deixado para trás.
FIM.
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