Escritas

Visitas forçadas de amigos que gostaria de ter

Canisso Rimano
Depois de acordar de noites bem dormidas

Tenho me permitido as melhores manhãs

Converso por primeiro com meu cachorro, lhe dou um bom dia enquanto ele se estica,

Logo depois, procuro aquela que me acompanha desde muito tempo, lhe dou bom dia enquanto ela coa o café

Fico amigo dela rápido novamente, desde ontem a noite,

E logo sentamos a mesa a conversar e, é impressionante, como ideias bizarras mas brilhantes nos saem pela boca,

Essa gasolina me aquece por dentro, e ela vai trabalhar.

É aí, entre este tempo em que ela sai e eu fico terminando de me arrumar, que ligo pra outro amigo para que venha continuar a conversa que tive com ela, e terminar o resto de café quente, e a queimar o resto de gasolina que ainda me aquece por dentro.

Tenho chamado vários, cada dia um diferente, mas não muitos que não possa contar nas mãos,

Já chamei Pessoa, e ele é sempre duro e carrancudo, mas me faz ficar sóbrio para o dia. Ele sempre chega com mais alguém junto com ele, às vezes traz o Álvaro, por vezes, Caeiro ou ainda o Ricardo.

Já chamei Melo Neto, que é mais brando, mas nem por isso menos interessante.

Chamei estes dias atrás a Martha, e ela me falou de vários outros amigos delas, todos muito certos da incerteza desta vida.

Chamo com certa frequência Abujamra, e o tenho como um terceiro avô com quem gostaria de ter sentado e sido provocado.

Chamo por vezes alguns cientistas, sim, e por que não? Sagan e Tyson chegam sempre juntos e trazem por vezes o Hawking em sua cadeira de rodas, orgulhoso de ter enxergado com sua lógica precisa, o interior de buracos negros. Conversamos sempre sobre educação e sobre humildade. Lamentamos o desperdício das mídias.

Também me faz visitas o Mlodinov, pra me lembrar que temos pouco controle sobre o que tanto queremos controlar, e que nossa mente subjetiva é tão vasta que muitas vezes nos prega peças.

Sento com cada um deles, sozinho.

Há algum tempo, trouxe Jesus, Buda e Muhammad para uma conversa. Os três se entenderam tanto em suas ideias que eu fiquei só ouvindo. O mundo seria um lugar melhor se dali surgisse outra religião. Todos se queixavam de terem tido seus discursos distorcidos. Me confidenciaram que nunca haviam pedido para que templos fossem levantados em seus nomes. Tudo o que queriam era que as pessoas tratassem bem umas às outras.

Dia sim, dia não, senta-se comigo uma senhora já debilitada, apesar de ainda não ser tão idosa. Sei de sua condição pois ela não se cansa de me contar e repetir sua debilidade.

Me conta de como teve poucos momentos bons, e que poucas escolhas fez por si própria.

Conta histórias de amor que negou viver, de traumas sobre traumas que passou pelas inúmeras mortes que vivenciou. De sua covardia perante a vida. E por fim, lamenta-se antecipadamente da vida perdida, sem forças pra tentar.

E de todos que se sentam comigo, sejam poetas, cientistas, mártires ou santos, esta última senhora do tempo perdido é a que mais me ensina.

Sigo concluindo meu café pra iniciar o dia com aquela pulga atrás da’orelha me dizendo:

Quando sentir que é hora de virar a mesa, não pense, vire.