Escritas

Oração, ciência, arte e nada

Canisso Rimano
Quando novo, 

Rezava antes de dormir para dormir o sono dos anjos

(aqueles seres que nunca dormem e fazem extensas horas extras, Deus sabe como).

Com a chegada da matemática,

Comecei a calcular que talvez a solução não fosse bem Aquela Verdade invisível e absoluta personificada em um Ser mais que humano.

Na juventude, 

Ditos gênios da filosofia ocidental se levantaram das tumbas para me ajudar no velório e enterro da religião. Por pura inocência, acabei escolhendo leituras endurecidas e mal selecionadas.

Já na vida adulta,

Tendo levado acumuladas e boas bofetadas, quando caído em frangalhos, preces me voltaram à mente, balbuciadas em tom de filho pródigo. Em tom ridículo e pífio de filho fracassado.

Agora,

No momento antes do momento marcado para o fim, atrasado (antes tarde, já que, agora, nunca mais), finalmente me deleito com o nada, com a arte, purarte, por arte, aquela que parte de dentro onde tudo brota. 

Canto e falo com um pássaro e rosno com meu cão (como quando fazia quando novo, antes de rezar pra dormir o sono dos anjos), porque sei, em minha ligeira superioridade da condição humana, de um segredo que estes animais nunca imaginariam 

(e que divindade não serem capazes de o imaginar)

Há um momento marcado para o fim do canto, da fala e da rosna. 

O seu fim.