Escritas

fica pra jantar

marialuiza
a objetiva praticidade desse apart me insulta, cada minuto um pouco mais.
esse nude nas paredes paira sobre os meus olhos e eu me pergunto: o quão rude pode ser uma decoração? que rigidez silenciosa as coisas inanimadas podem provocar? 
o ar rodopia lá fora e parece não se sentir atraído o suficiente pra ultrapassar essas janelas. eu penso em te chamar.
eu olho as outras acomodações e todas estão identicamente distribuídas com a mesma característica prática, séria e desconvidativa. não há casebres no entorno.
você devia vir conferir como é feio.
ou tentar me ajudar a achar um meio
de não preencher o meu tempo pensando em sumir daqui.
posso até deixar algo no forno
e te oferecer um tanto.
você sentar no sofá, e
nós dois, sincronizadamente ressaltarmos
que isso não é um jantar romântico.
sua presença fazendo as paredes ficarem, de maneira harmoniosa, menos pálidas. passando até a se desculparem, por aquela vez que me esfregaram na cara a minha postura recente, escapista, absurdamente ociosa. você observa a conciliação. 
teus pés adentram para ir conhecer o restante da casa. cê repara que é complicado pra mim esse negócio de se organizar, e que o sol, por volta das quatro e meia, bate na metade do meu colchão. os livros que marcaram o meu batizado de leitora precoce estão empoeirados e empilhados ao lado de um de poesias que tu me deu. a gente fala sobre o que eu achei da narrativa e o teu olhar tateia a minha quantidade inútil de roupões. 
então, eu me lembro que ia te oferecer algo pra comer, da minha falta de tato com visitas, em como minha desenvoltura social se auto reprime quando eu tô perto de você, também me vem em mente todas as refeições que seriam agradáveis naquele momento, e um detalhe importante: nenhuma delas eu sei fazer.