Escritas

acontecimentos pontiagudos

marialuiza
alguém mordeu um pedacinho da lua hoje, dois gatos brincam no calçamento deserto agora, um casal degusta vinho em uma varanda ambientada sonoramente por música ruim, alguém do andar de cima escreve sem disposição e ânimo pra tal coisa, uma (não) mãe cochila com fome enquanto os filhos completamente adormecidos tem os seus estômagos minimamente alimentados e o pai sei lá o quê.
os fatos do mundo, sendo tenros ou malditos, se expõem a mim, se colocam sobre os meus olhos, se espalham dentro dos meus ouvidos, irritam o meu nariz com o seu odor, amargam minha língua por terem um sabor hostil, amassam a minha pele, quase lembrando um toque viril (rude)
e o meu dar de ombros pra todos eles contrasta com a vontade de adentra-los, o que me faz não descer as escadas e ir até a rua gélida fazer carinho nos felinos? que impedimento prudente não me deixa entrar no grupo de Whatsapp do condomínio e postar a playlist das cinco melhores músicas para ouvir enquanto se experimenta vinhos romanticamente, pra que indiretamente aquele vizinho veja e passe a duvidar da musicalidade dos seus hits preferidos, e que tipo de pudor me censura e influi pra que eu não confesse o quanto os escritos desse cara me tocam? em que parte da confissão eu deixo escapar que não é só na produção literária que ele faz surtir efeitos-fagulhas em mim? como eu desfaço o nó que fica na minha garganta quando eu durmo de barriga cheia, ouvindo ruídos do estômago alheio ecoando na minha cabeça, deixando um vazio no meu coração, e ainda...trazendo-me inúmeras vezes o valor exato da quantidade de dinheiro que eu guardo em minha carteira. com que Deus eu grito enquanto culpo-o por um filho da puta simplesmente conseguir morder a lua no tempo em que essa família segue dias sem comer? cerrar os punhos enquanto eu me refiro à uma divindade vai me mandar direto pro inferno? qual é a cor da caneta celestial que me darão pra eu assinar minha penitência de permanecer aqui e seguir vendo o que eu já vi, dormir novamente sabendo do que eu sei, olhar no espelho mais uma vez e ver a insignificância que eu sou diante dos acontecimentos pontiagudos que me perfuram o peito todos os dias?