Escritas

Enigma

MARINA SATIRO
A falta que sinto. A ausência! O toque que entorpece, o corpo que encaixa, o sangue que ferve. O vinho que derrama, o pranto que clama, a fúria que encanta. O desejo sublime inebria a carne tão perversa, insensata. O teu corpo polido desmancha no meu prazer. Arrasa, embriaga o que te alucina. O sono que rouba adormece a voragem. Matas o que me destrói, destrói o que corrói, cegas o que não consigo enxergar. Queima o que me abrasa, assusta. Dispersa em mim o que te preenche.
Acalma a insanidade que invade. O que alucina, indefesso, voraz, ataca, indecomponível. Não feche os meus olhos. Não se deixe insensibilizar. Preciso do teu vestígio na minha estupidez. O sonho! Irreal. Vejo-te! A miragem que cessa o suplício. O doce, o amargo, o frio, o quente, o teu fervor, o teu calor, o meu fogo. O eflúvio do teu suor persegue a minha volúpia. O ar arquejante, a boca aquosa, a língua fatigante cessa o inexplicável. Adormeço! A realidade inescrupulosa.
Prende-se no sexo incompreensível, desconexo, o conjunto, que se junta, fascina, se atraca, se envolve, não devolve. A fugacidade da tua cena, o semblante, a interpretação se faz no meu palco imperfeito. A distância! Quanto mais longe, maior a presença da tua solidão que se instaura em mim. Sequiosa. No meu cilício, percorre as farpas do amor que morre em abundância e vive dentro do que chama. Mutila, insulta, cessa o inexorável. O que se enclausurou perdura na minha atimia.
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