Dentro do meu silêncio
MARINA SATIRO
Ainda se prende em mim o gole amargo da solidão. Nada transpassa o que sinto e sinto em abundância. O toque se fez e rasgou até n'alma, o pecado se consumou no meu desejo. O pensamento traiu o corpo cálido, escorreu por entre as pernas o teu deleite tão puro e tentador. Sufoca-me o beijo não dado, o sussurro que ecoa no véu do meu delírio. Arrasa e fere, ataca essa dor que estrangula o meu suplício. A saudade que se instaurou na carne e fez-me condenada. O amor! Fútil, fugaz, mas que alenta a minha fuga. Apaga essa marca que manchou para sempre a minha cobiça. Arranca do meu peito essa paixão insolúvel. Nada resta! As lembranças se perderam no meu breu. O que findou se eternizou na minha languidez. Enxergo como uma miragem os teus olhos tão vastos, tão cheios de mim. E em mim adormecem na minha esperança. Muitos e único dentro do que me compõe. Tudo que em mim grita, clama por ti. O sonho! A mão que arranca a volúpia estampada na carne tão quente. O seio que alimenta a fúria ocultada na tua estupidez. O sangue que ferve, o fervor que atiça, o tudo que em ti me alucina. A soberbia que aflige e impede a vida que finge esquecer. Quero em todos os instantes pensar em ti. O teu tudo se fixou no que me contempla. Tua imagem tão nítida, teus dedos, o toque que esculpiu o desconhecido no meu desejo. Prendeu-se em mim o abandono, o ermo que habita dentro do meu gozo. A tua ausência se perdeu no que não consigo imaginar.
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