Escritas

(In) Constância

MARINA SATIRO
Escorreu pelas mãos a maciez da tez, mas permaneceu o toque que extasiou todos os sentidos. O sussurro tilinta, vibra, urge no arrepio eloqüente. O vinho cruento, encorpado, preenche, completa. O tempo! Que passa, disfarça, refaz. Vira-se! O avesso, o fel, o desgosto, o vinagre, derrama n'alma o ardor cravado largado pelo deleite intenso, longínquo. Sublime! O momento, a boca, a língua, o ar no ar. O mundo, submundo, cru, nu. O gozo que invade, inflama, queima, sossega a ânsia derradeira. A mão instigando a pele percorre o caminho, labirinto de refúgios insensatos. A música sensual, a curva tênue que embala , o infinito se perde , reduz, reluz no brilho do olhar. Quebram! Cacos de teia, a saliva, inebria o mistério inseparável. Evapora-se! Perde-se! Acabou-se! Tudo ou nada, que inunda, desnuda a inocência perversa. A súbita saudade que lava a solitude e rouba o que se distanciou. O corpo que mente, rejeita, devora o gosto, o sabor do mel. Gota a gota dentro do mal que se esvai aos poucos. Ressuscita! A paixão desenfreada expluiu dentro do que já havia se desfeito. Forja! Engana! Destrói o amor que arruína. Protege! Embala, no amasso o desejo facundo, efêmero, não se dissolve. A mente que lembra, o pensamento que perturba, as imagens que se reconstroem, distorcidas. As mãos que desenlaçam, o cheiro que evapora, a vida que se desfaz. O inacabado recomeça. Os beijos! Travados, engasgados, perdidos no vão da lucidez. Tudo outra vez! Não há disfarce na ilusão. A realidade simulada, medíocre, hipócrita. A eternidade se enclausura na angústia leviana, insensata. De devaneios insanos, regidos por impulsos descontroláveis, se tecem os nós estagnados na memória.
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