Partir-me

A parte mais difícil de qualquer processo é o reconhecer. Quando há o reconhecimento, surge a dor, a frustação, há uma lascívia pulsante que atinge todo o nosso ser, é cortante. A dor é forte, transparente, cafeinada, pulgente. Que o anseio se ampare na ideia de que ela passará e produzirá o que é cético, mas isso é uma mera expectativa de quem objetiva dias brilhosos, tudo é incerto, nada é estável e sempre, sempre haverá muito mais terra sob os nossos pés. Mas, mas, mas, como norteio em viciosos ciclos do mas que circundam a minha existência, gostaria de alcançar em minha arte o ideal cético de que tal provocou-me uma transformação, um amadurecimento para situações futuras as quais o simples fato de existir impõe a todos (de diferentes formas, intensidades e dimensões, é claro), mas, eu apenas consigo aforgar-me na tragédia que é isto tudo, e sem eufemismos, sim, uma calamidade moral. Nem tudo é progressão, talvez seja, talvez não, mas desesperança é um estado também e ninguém é obrigado a permanecer sempre forte, estar fraco também é estar, quero permitir-me estar assim e partir-me ao menos neste momento, nesta hora tragediosa. Quero permitir-me partir.
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