Há muito tempo
Há muito tempo, creio que durante a minha adolescência, cheguei a pensar que um dia poderia ser padre. Não é muito estranho, se considerarmos que também escrevi um soneto enaltecendo Salazar, um dos demónios portugueses. E não pensei só no sacerdócio, mas também
noutras categorias, como por exemplo monge. Monge é uma figura mais ascética, mais removida da religião visível, mais atraente para os
desiludidos da sociedade.
Existem figuras no meu passado que eu não sei se alguma vez foram reais, ou se foram apenas produtos da minha imaginação.
E isso leva-me a considerar se eu mesmo sou real, ou uma ilusão que permanece durante muito tempo.
Há muitos anos, mais do que a minha memória consegue esquecer, visitei com os meus pais o que restava de um mosteiro no alto de um
monte, no norte de portugal; ali, Deus tinha sido adorado, esquecido e ultrajado. Mas, não obstante isso, o ar era puro e altivo, desprendido
da planície, como que a meio caminho do céu. A igreja era linda, embora eu não me recorde dela, mas na sacristia, onde guardavam os
paramentos dos sacerdotes, havia um baú de madeira com muitos metros, e a tampa, também de madeira, era uma peça sólida e inteira.
Impossível saber se assim eram os intelectos dos que por ali passaram; não duvidando da sua fé ardente, quantas seriam as brechas, e
que profundas, nas almas dos ascetas ?
Mas o meu espírito elevou-se com essa experiência; o lugar era alto e extraordinário e falava do que mais puro pode existir entre nós.
A paisagem era fascinante, o vento soprava com uma liberdade benigna, o ar era rico e fragrante.
Nem eu, no dia de hoje, posso afirmar se o que percebi era real.
O dia avançava sobre si mesmo, e eu, miserável humano, senti fome. Uma refeição de pão e queijo foi encontrada, por boa vontade
dos locais, e até hoje outra igual não encontrei. Os cavalos regressavam do pasto, por si sós, pelas ruas da aldeia. Alucinações não eram. É
verdade que vi cavalos a trote pelas ruas da aldeia sem ninguém a guiá-los, mas eles sabiam aonde iam.
Gostaria de poder dizer isso, então, sobre mim próprio.
Mas senti, sem o poder compreender, que nesse mosteiro no cimo do monte, sem a luxúria de um futuro ainda desconhecido, me
poderia encontrar a mim mesmo, sem ver o meu rumo desviado por ilusões estranhas às minhas, nem sequer pelas minhas próprias
fraquezas.
Não sei porquê, mas chegámos tarde para o jantar.
noutras categorias, como por exemplo monge. Monge é uma figura mais ascética, mais removida da religião visível, mais atraente para os
desiludidos da sociedade.
Existem figuras no meu passado que eu não sei se alguma vez foram reais, ou se foram apenas produtos da minha imaginação.
E isso leva-me a considerar se eu mesmo sou real, ou uma ilusão que permanece durante muito tempo.
Há muitos anos, mais do que a minha memória consegue esquecer, visitei com os meus pais o que restava de um mosteiro no alto de um
monte, no norte de portugal; ali, Deus tinha sido adorado, esquecido e ultrajado. Mas, não obstante isso, o ar era puro e altivo, desprendido
da planície, como que a meio caminho do céu. A igreja era linda, embora eu não me recorde dela, mas na sacristia, onde guardavam os
paramentos dos sacerdotes, havia um baú de madeira com muitos metros, e a tampa, também de madeira, era uma peça sólida e inteira.
Impossível saber se assim eram os intelectos dos que por ali passaram; não duvidando da sua fé ardente, quantas seriam as brechas, e
que profundas, nas almas dos ascetas ?
Mas o meu espírito elevou-se com essa experiência; o lugar era alto e extraordinário e falava do que mais puro pode existir entre nós.
A paisagem era fascinante, o vento soprava com uma liberdade benigna, o ar era rico e fragrante.
Nem eu, no dia de hoje, posso afirmar se o que percebi era real.
O dia avançava sobre si mesmo, e eu, miserável humano, senti fome. Uma refeição de pão e queijo foi encontrada, por boa vontade
dos locais, e até hoje outra igual não encontrei. Os cavalos regressavam do pasto, por si sós, pelas ruas da aldeia. Alucinações não eram. É
verdade que vi cavalos a trote pelas ruas da aldeia sem ninguém a guiá-los, mas eles sabiam aonde iam.
Gostaria de poder dizer isso, então, sobre mim próprio.
Mas senti, sem o poder compreender, que nesse mosteiro no cimo do monte, sem a luxúria de um futuro ainda desconhecido, me
poderia encontrar a mim mesmo, sem ver o meu rumo desviado por ilusões estranhas às minhas, nem sequer pelas minhas próprias
fraquezas.
Não sei porquê, mas chegámos tarde para o jantar.
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