descobrir
mas o que me mantém vivo
é a íntima perspectiva
de descobrir algo novo
a cada ínfimo dia.
é saber que a grande noite
pode não ser maior que
as estrelas que ali estão,
contanto que eu assim as busque
e as perscrute, atentamente.
que sequer é necessário
ir tão longe para ver
que ainda há muito pra ver.
é saber que, como há estrelas,
e insetos, e aves, e sapos,
há também canções mais belas
em algum lugar, dormentes,
as quais posso despertar
e trazer até quem sou,
promovendo a integração,
a meu mundo, de um novo ar
de renovado perfume
ou sufocante verdade,
de qualquer modo bastando
por ser, sobretudo, a vida.
sim - o que me mantém vivo
é a íntima perspectiva
de descobrir, amanhã,
uma canção polonesa,
um novo sabor ou cheiro,
um país dentro de um bairro,
ou o segredo dos pássaros
(estes tais dinossaurinhos).
ou, ainda, algo menor:
um silêncio, um pensamento,
uma sensação sem nome
de serenidade ímpar.
não é o sonho de viver
quando já não for meu tempo.
nem o anseio de conter
algo eterno, a que repilo.
é o mero o prazer de andar
de um ponto ao outro, observando
o quanto for observável
no instante único que é tudo,
e atestar que ali há muito,
há tanto, tanto que não
conheço! e que desconheço
em meu desconhecimento!
é a recordação do espanto
buscando ressuscitar,
para outra vez afirmar
o privilégio da alma.
é o que me mantém vivo.
a íntima perspectiva
de descobrir algo novo
a cada ínfimo dia.
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