Escritas

AZEVEDIANA

sbaviera
AZEVEDIANA

Se esta peste terminasse amanhã

E se eu por acaso vivo ainda restar

Prometo considerar essencial

Tudo aquilo que julgava secundário

Verei um nascer do sol

E não direi mais apenas:

“Que bonito nascer do sol!”

Lembrar-me-ei de Quental, e declamarei:

“Tu, casta e alegre luz da madrugada,

Sobe, cresce no céu, pura e vibrante,

E enche de força o coração triunfante

Dos que ainda esperam, luz imaculada.”

 

Entrarei em uma livraria (caso existam ainda)

E gritarei a todo pulmão:

“Tão ou mais essencial do que o pão

Que sobra à mesa do rico, mas se ausenta da do pobre

É o livro, que transforma em sonho bom

As tristezas desta vida inconcebível!

(ou em pesadelo suas alegrias insensatas)”.

 

Se esta peste terminasse amanhã

Terei aprendido, espero

Se teimoso houver deixado de ser

Que as coisas pequenas da vida

Somente são pequenas porque as enxergamos assim

E as grandes, vice-versa...

Tentarei – e conseguirei – como Machado

“Tratar de maneira leve as coisas graves,

E de maneira grave as coisas leves”.

Se esta peste terminasse amanhã

Estudarei pelo simples prazer

De me sentir parte da consciência universal

E de saber que ainda que morra um dia

Terei uma morte feliz.