Precisamos falar sobre a raiva

Aquilo que é de mais difícil admissão
Duro, rígido, solidificado feito concreto
A raiva pelo rosto da mulher
Que se assemelha ao meu

Disputamos pequenos espaços
Pois não nos permitem coexistir
Como ousa roubar meus traços?
Por que me vende um espelho?
E por que odeio a imagem que ele reflete?

Porque sou eu
Porque sou você
Porque nós somos
Aquelas não-brancas
A negação de tudo que é belo

Por que elas não olham nos meus olhos?
Por que não me escolhem?
Por que tenho medo delas?

Porque duvido de tudo
Porque não sou escura o bastante
Porque não sou clara o suficiente
Porque não tenho chão para pisar
Porque não pertenço a grupo algum
Porque nenhum deles me quer
Porque a cor é toda errada

Carrego junto dela o privilégio
Da manhã
E as absurdas violências
Da noite

Mas eu vivo o dia todo, não vivo?
Não escolho um período para existir
Sou dia e noite
Noite o bastante para desagradar o dia
Dia demais para ser acolhida pela noite

No meio disso tudo
O que sinto é raiva
Da minha incompletude
De quem me criou incompleta
Daqueles que desenharam
O incompleto do meu corpo
E multiplicaram o meu rosto
Em tantas mil mulheres

Que me fazem lembrar
Da minha raiva
Expressa em cada linha angular
Que vem e vai
Do fio de cabelo a
Gengiva escura
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