QUADROS NUM ABISMO

Nada em mim é notável
Os pés seguem por rumos ordinários
Ainda assim
Digo ter sorte
E hão de concordar comigo

Pois

Quando os únicos ouvidos eram as folhas de um caderno sem pauta

A voz não precisava dizer, bastando o riscar quase sem ruído da caneta tinteira no papel

As louças eram postas sem par

A cúrcuma temperava um jantar de diminuta porção

E tantos horizontes se pintavam de cores que faziam duvidar.

Quando as pegadas na areia marcavam de dois em dois ouvindo as ondas em um coração-cais sem marinheiro

Os abismos tinham ecos sedutores

E a poesia fazia silêncio na imensidão de uma cama amargamente confortável.

Quando esperança não era senão um fio de balão de hélio que quase escapa de pequenas mãos…

As flores abriram com um afago
A cozinha se fez um salão de baile
Vira-latas alegraram o mundo
E o Improvável veio de trem para o chá
A mesa feita
Para dois.
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