O espetáculo do mundo
adilson_castro
Inverno inclemente
Tarde fria como vingança no prato
Eis que de rastos cá estou
Colidido à beira mar...
Entre a brisa recalcitrante, ouço deleito o vaivém do mar ondulante
Astros nublados de um dia cinzento revestem o céu desolador
De Oeste a Este, sobrevoam as andorinhas o mar
E ao longe, se pousam sobre o centenário navio negreiro
Que já velho e desospedado, se revela por fim um pedaço da história
Penso: Quantos Homens escravizados ali se fizeram?
Quanta insanidade terá nele embarcado ?
Sucederá que embora à deriva, e quase de todo banhado no mar
É dito ecoarem no interior lamentações de espíritos inconformados
Indígenas africanos que ao mar se fizeram de vontade contrária...
Pés descalços e olhar introspectivo
Quando mais não fosse para uma viagem sem volta !
Enfim, talvez hajam nunca razões para memórias fúnebres
A morte dispensa lamentações
Todos à nossa hora perecemos
Intelectuais ou incultos, católicos ou protestantes, poetas ou indolentes...
Morre-se indiscriminadamente
O que haverá de mim quando tiver partido?
Terá a posteridade rastos da minha passagem ?
Saberá que num recinto de paisagem remota por onde repousa um silêncio possesso
figurara um homenzinho de alma dilacerada?
Como árvore caída no meio da floresta, o mundo não se dará pelo o meu sumiço
Seguirá antes indiferente
Com o vento a vibrar no mesmo tom, e as estrelas com o mesmo encanto
Haverá trânsito na estrada, e beberrões nos bares
Sorrindo às gargalhadas perante a distópica insignificância
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