Escritas

abóbora

yuri petrilli
talvez tenham falado sobre orvalhos
de modo tão somente literário.
talvez nunca tenham visto, em verdade,
o vidro aquoso na folha da couve,
a deslizar e a encerrar as belezas
todas, enquanto a manhã se desata.

talvez tenham falado sobre os frutos
(e eu os tenha ouvido sem devido afinco)
falando, apenas – com lindas frases.
mas talvez nunca tenham visto, mesmo,
a abóbora amarela a elaborar-se
vagarosamente, onde as mãos cavaram.

talvez o fado da palavra seja
o encantamento que se dá por erro.
talvez só os olhos leiam com mais clareza,
e a pele colha com mais contrição
os sopros dos ventos que nada falam
– mas dizem, pois tocam o cerne mudo.

talvez não tenham falado o bastante.
talvez me tenha faltado sentir.
talvez nada disso seja importante.
mas é necessário ver, sem mais nada.
mas é necessário transpor a página
e trazer ao sangue as cores dos caules.
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