tríptico sem título
yuri petrilli
I
meu coração se dissipou no laço.
restou-me o laço, amarrado no peito.
restou-me o peito, vazio descompasso.
restou-me o coração na mão sem jeito,
pois que do peito, onde antes se cumpria,
dissipou-se. enforcou-se na lembrança.
partiu para fora da poesia.
caiu na minha mão, sem esperança.
mas, coração, tem olhos e calor.
olhos que guardam o abismo e o espelho.
o vejo. me vê... (quase uma centelha).
se dissipará na mão o seu fulgor.
depois nada. nada? ...não. - o vermelho
laço restará na morada velha.
II
não tenho flor com que adornar o rude
labirinto de artérias e de músculos
que me compõe a vida. onde pude,
busquei. destrinchei mesmo os mais minúsculos
canteiros pisoteados das praças
da cidade, por onde o coração,
que tive, caminhava, em noites baças,
chutando latas - e recordação.
não tenho flor. não tenho rima ou verso.
tenho palavras. tenho duas mãos,
dentre as quais só uma escreve - impelida
pela falta. pelo pouco. pelo inverso.
nem disso a flor nasce. ah, e são tão vãos
os espólios desta ausência partida!...
III
a serpente se insere no silêncio.
nada é feito. então, vêm as aranhas.
nada é feito, mas visto: um olhar pênsil
(o meu?) o assiste. mas as teias, tamanhas,
estão já armadas para a captura.
serpente e aranhas. nada, nada é feito.
outro olhar vê. e outro. e outro. e da impura
inação surgem moscas. zumbe o peito
(o meu?) que se supõe bem mais sensível,
e indaga, contente, qual a razão
da perpetuação de tal má sorte.
por fora: "ninguém se importa? é possível?"
(mas a esperança dorme em sua mão.)
por dentro: "é. talvez nem eu me importe"
meu coração se dissipou no laço.
restou-me o laço, amarrado no peito.
restou-me o peito, vazio descompasso.
restou-me o coração na mão sem jeito,
pois que do peito, onde antes se cumpria,
dissipou-se. enforcou-se na lembrança.
partiu para fora da poesia.
caiu na minha mão, sem esperança.
mas, coração, tem olhos e calor.
olhos que guardam o abismo e o espelho.
o vejo. me vê... (quase uma centelha).
se dissipará na mão o seu fulgor.
depois nada. nada? ...não. - o vermelho
laço restará na morada velha.
II
não tenho flor com que adornar o rude
labirinto de artérias e de músculos
que me compõe a vida. onde pude,
busquei. destrinchei mesmo os mais minúsculos
canteiros pisoteados das praças
da cidade, por onde o coração,
que tive, caminhava, em noites baças,
chutando latas - e recordação.
não tenho flor. não tenho rima ou verso.
tenho palavras. tenho duas mãos,
dentre as quais só uma escreve - impelida
pela falta. pelo pouco. pelo inverso.
nem disso a flor nasce. ah, e são tão vãos
os espólios desta ausência partida!...
III
a serpente se insere no silêncio.
nada é feito. então, vêm as aranhas.
nada é feito, mas visto: um olhar pênsil
(o meu?) o assiste. mas as teias, tamanhas,
estão já armadas para a captura.
serpente e aranhas. nada, nada é feito.
outro olhar vê. e outro. e outro. e da impura
inação surgem moscas. zumbe o peito
(o meu?) que se supõe bem mais sensível,
e indaga, contente, qual a razão
da perpetuação de tal má sorte.
por fora: "ninguém se importa? é possível?"
(mas a esperança dorme em sua mão.)
por dentro: "é. talvez nem eu me importe"
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