Escritas

tríptico de outubro

yuri petrilli
i.

a noite acusa
  crimes
     diurnos.

ii.

espias pela janela
e sabes:
ninguém te espera.

fitas o fundo da noite
e sentes:
ninguém te ouve.

anônimo e só,
não há estrela visível,
não há esperança por acaso plausível,
e a música que se insinua distante
é apenas um borrão sonoro
indistinguível.

entendes que não virá canto
compensar a treva dispersa,
e mesmo o campo já não te comove
(viste lá também a morte).

sabes, pequeno, das dores,
das flores, dos bichos, das chuvas,
dos instantes se esfarelando...
esqueces e calas.
muito não sabes ainda do que ainda te fará sofrer,
e só o compreendes de longe.

e ainda assim em ti se faz um poema:
um poema se faz
nas suas entranhas.

um poema forjado com palavras indizíveis, dolorosas,
extraídas das  turvas formas
e faces
da noite.

um poema que ninguém espera,
um poema que ninguém ouve,
um poema retorcido, heroico, imenso e patético
que ninguém jamais saberá sequer
que um dia
existiu.

mas tu, e só tu só,
à janela de ferro pobre,
carregas a dor
e sabes
que o poema existe.

e persiste
por idades
                cruamente.

iii.

a noite destilada
   decomposta
 pinga
 na ferida
         exposta
que arde
  e se fecha
    lentamente.

            provisoriamente
são absolvidos
  os mutiladores
   confessos
de alvoradas.

dormem todos...
            – com facas
e sementes
      nas mãos
fechadas.
61 Visualizações

Comentários (0)

Iniciar sessão ToPostComment