Escritas

Hóspede

victor_allonge
No reflexo do espelho eu vejo,
as paredes salmão pintadas,
junto às flores azuis caladas,
para não as focar atenção.

Ao fundo modestos já posam:
imóveis, armário e criado
um velho, sem cor, deformado,
mas de orgulho e reputação.

Ao canto se escondem as fotos
que em cada moldura abarca
outro quarto, que lembra e marca
memória, passado e razão.

Nas estantes, livros parados
de vida e um amor amarelo,
de capas em tom caramelo,
na mais doce harmonia estão.

À frente, sofre em quietude
a cadeira que sento, quebrada
carente de um braço, amputada;
procura em meu corpo adesão.

Mas o centro é turvo, burlado
anônimo, falso ou anfíbio,
sem tons, esperança ou fascínio
Substância, assim solidão.
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