Escritas

Uma crônica

silvano75
uma crônica 

Sou estranho...não suporto clichês e mídias cabrestantes...
Todos em minha volta dançam no compasso do teatro que a mídia impôs a ideia de vida ‘normal’.
Gostar de determinado tipo de música, programa de televisão...
Falar palavras certas para momentos certos, endeusar uns, ignorar outros.
Dizer que uma rapariga da novela é linda, se é feia...um ator é um ‘monstro’ ou um jogador é fenômeno...
Não gosto de clichês...não gosto de seguir gostos...
Não gosto de ser ‘normal’ dentro da normalidade imposta e creditada ao meu círculo social.
Sou pobre, devo ser então esdrúxulo, falar alto e ter pés sujos.
Moro na periferia, devo então gostar de promiscuidade e novelas...
Da mesma forma, se morasse na restinga que antes era um pântano e que chamam hoje de barra da tijuca deveria ter um gosto mais refinado, ouvir Ella Fitzgerald, Nina Simone, discutir Sartre ou Foucault....
Os que moram na periferia aderiram a seu papel...realmente ouvem alto suas ‘musicas’, berram em seus cultos, ficam nas calçadas observando transeuntes.
As mulheres usam lenços ou grampos na cabeça, são chorosas e alcoviteiras, amam a desgraça, mas fingem se condoer e em geral se consideram mártires.
Os homens são estranhos, querem mostrar masculinidade como em uma savana, são vaidosos com suas bíblias ou se fingem corajosos em brigas.
Os emergentes por sua vez não se intimidam em arrotar preciosismo e cupidez, algo bem típico da elite caucasiana...as mulheres usam echarpe e botas no inverno, além de pintarem o cabelo com gostos duvidosos. São elétricas e verborrágicas...
Os homens com nádegas protuberantes, possuem glutonaria e luxúria dignas de Bosco,mas mantém um ar de distância e falsa dignidade.
Os jovens são a pior parte...sem possuir identidade e originalidade são cansativos, presunçosos e previsíveis....
Assim o são os homens e mulheres de meu tempo que como observado pelo hábil leitor...
Foram empacotados por mim em clichês que eu próprio impus aos componentes da chamada sociedade carioca
Cansado de clichês…cansado de clichês bairristas, municipalistas, regionalistas e nacionalistas.Cansado de clichês raciais e sociais, dos currais culturais e de colmeias da chamada moda.
Cansado da mídia roteirista, cansado do face, das redes e selfies, cansado desse grande teatro de cômicos bufões e dessa miríade teatral que se chama, natureza humana…, mas...
Natureza humana...algo tão surpreendente quanto singular.
Sua singularidade está em sua incerteza. Incerteza de surgir, de transmitir, de encantar e de horrorizar. Como pode de algo assim surgir um Rubens ou um Pablo Neruda?
Os genes que abrigam um Milton, (mineiro ou inglês), são os mesmos que estão em Chico Picadinho?
Natureza humana é algo tão singular e surpreendente que...
Entre os moradores da periferia se encontrem presunçosos e  arrogantes,
E entre os abastados da elite surjam piedosos e elegantes.
Talvez, eu...pardo, pobre e não acadêmico...colado ao clichê de morador da periferia...
Encante alguém com minhas memorias...e minhas ironias...

 les temps nous dira

Autor: daniel silvano