Escritas

fim de festa

yuri petrilli

Lentamente,
a música apagava-se nos labirintos da cidade.
Ele caminhava timidamente.

Em seu pensamento, restavam apenas ecos vagos
dos histéricos sorrisos gastos há poucos instantes
no descerebrado carnaval de cores,
sons que agora ressoavam como guizos fantasmagóricos
de algum sonho que se sabe ter sonhado,
embora se não saiba como, exatamente,
ou tampouco a exata substância do que se sonhou...

Mas havia tudo ocorrido, indubitavelmente,
naquela noite,
e há poucos instantes.


             poucos
                                instantes.

E todos os instantes quebravam-se
nos gestos com quais chutava, veredas afora,
a vazia lata restante
de vazios tragos.

Chutava a lata noite afora,
maculando o silêncio.

Tinha ainda, nas rugas da camisa cinzenta
que vestia sobre a oculta ravina de si,
coloridos confetes encharcados
descolorindo em manchas pobres.
E era tudo o que tinha de cor.

Chutava a lata noite afora,
ferindo os próprios tímpanos.
Chutava a lata pela cidade escura.

Que era da sua alegria
de há poucos instantes?
Que havia de tão estupidamente real nas casas
ruas
janelas
postes
pedriscos
e, sobretudo, no seco som da lata que chutava solidão afora,

que esfacelasse tão ironicamente
o artifício de seus sorrisos gastos


             poucos
                               instantes?

Silêncio. Vento gélido.
Erma cidade, galeria de espelhos.

E chutava a lata desespero afora, sem pistas na consciência,
e sentia como se
chutasse
o próprio
coração
refletido,

feito prosopopeia
e metáfora,
na lata;
espólio de uma centelha
de há poucos instantes.

O plenilúnio fazia troças.

E num ímpeto de rendição sem raiva,
deitou-a, num golpe, à sarjeta,
dando-a lá guarida, pobre lata;
e, como tal, rumou também a casa,
logo em seguida.

Finda a festa.
Findo o riso.
Noite infinda.

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