passagem
yuri petrilli
Incompetente no ofício
De guiar a minha vida,
Eu sigo pelo interstício,
Movido pelo cansaço,
Desta estrada esmorecida
Sobre a qual, vazio, eu passo.
Passo, humano, baço e errante
Pelas vãs reminiscências
De um coração já distante,
Maquinista de minha alma,
Que através das contingências
Dava-me um torpor de calma.
Passo assim, sem perceber,
Pelos céus estilhaçados.
Mas não posso conceber
O caminho a desbravar;
Meus sentidos, conspurcados,
Me impedem de imaginar...
Passo, sem, porém, passar,
Vivendo qual folha seca,
Exaurida, a despencar
Dos galhos lindos de outrora
Quando podia sonhar
Com o que mal lembro agora.
Entretanto, não lamento.
Eu simplesmente confesso
Minha angústia e alheamento
Ante o dever de viver
Este, do qual nunca esqueço,
Consciente do meu ser.
E passo, então, humildemente
Pela infinda estrada imposta,
Com meu coração doente
Depravado, marginal,
Tímido, a buscar resposta
Ao que sinto, afinal.
Passageiro de mim mesmo!
Pelos trilhos tão incertos,
Em meu comboio, sigo a esmo,
Vendo, com o olhar tristonho,
Esta vida e seus desertos;
Mas tudo parece um sonho...
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