Escritas

Sem os vícios

Carol De Bonis
Era bom sem os vícios para encarar o poema com luvas cirúrgicas. 
Bom mesmo, estancar o corte para alguma função específica 
da lucidez ou da solidão e drenar parte por parte 
para lembrar que apesar da faca a foice do tempo
ilude os caminhos dos passos para o outro lado.

Bom sem os vícios, atravessar o lado avesso do poema
como quem cria linhas geométricas de esquecer
lugar sobre lugar até iludir a si sobre seres voluntários
que habitam um hotel periférico da memória. 

Ser feito intimidade que não se deixa devastar
pelo vício do calcário de afogar-se em corais
seria o vício da dor entre o instante e o nada
qualquer desvio da natureza? Bom sem os vícios,

para pronunciar em voz alta suas fraturas
curvar-se até o cortejo do insuportável
sedimentar àquele silente a aprendizagem
de quem caminha com a visão distante.
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