A MÍMICA INVERTIDA DOS DESAPARECIDOS
Todos dormem à nossa volta.
Somos impacientes. Sabemos que algo vai acontecer;
hoje, amanhã, quem sabe agora mesmo,
do nosso lado, logo à frente,
ou dentro de nós,
como se as carnes mutiladas tivessem olhos e vida.
Ter o peso da gravidade é o que basta.
Desenhos, às vezes, esquemáticos,
desprovidos de representação,
onde procuramos a ilusão
de um espaço que se dilata
para além da dor,
como prova de que tudo está perdido.
Algo está sendo lacerado e romperá nossos corpos.
A sensibilidade nos envergonha,
nós cujos olhos abertos não conseguem apreender
essas imperfeições da forma.
A marca espontânea e a mancha que se espalha,
sombras se movendo como num jogo de cartas.
Nunca saberemos onde estão aqueles que nos ouvem,
excluímos as distâncias, na expectativa
de conseguir o que os olhos não oferecem.
Alguns riem e não se perguntam
como mortos sem olhos podem chorar.
Dizem apenas que o horizonte é definido por um muro
e os incêndios da noite jamais nos tocarão.
Mas há coisas que não se mencionam
quando palavras tão importantes
são esquecidas com facilidade. Um exemplo:
os contornos de todas essas imagens que se oferecem
à incerteza do olhar,
como se, entre respirações que impedem de ouvir
o que há muito se disse,
a única opção fosse ser vítima de um engano inocente,
linguagem nascida de uma fraqueza momentânea.
Em que pensam, mergulhados na escuridão?
É um fenômeno notável e de certo modo científico.
Não pode ser a culpa que os faz belos.
Não pode ser também o castigo justo
que desde já os embeleza.
Nenhuma dessas criaturas tem um lugar fixo,
um contorno fixo e próprio,
não há nenhuma que esteja contando quantas vezes
seus olhos piscam,
nenhuma que seja digna de um vizinho ou um inimigo
e tenha consumido o tempo à sua disposição.
Impossível falar aqui de ordens e hierarquias.
Está excluído que eles sejam o que representam.
Mas esses simples gestos não são gestos de animal?
Indecisos, oscilamos de uma preocupação a outra,
saboreamos o medo e temos a inconstância do desespero.
O que se resgata do abrigo dos corpos?
Não vemos os olhos e o que eles seguem.
De uma extremidade a outra apenas o silêncio.
E, à mesa, uma sensação de melancolia é marcada
pelo vasto espaço
entre a comida e as mãos.
Onde a comida existe para além da austeridade dos corpos.
As mãos há muito não conseguem
manter afastado aquilo que as incomodam.
Cada movimento dos dedos expõe a grande reunião
dos animais mortos.
Conversamos sem que nos entendam
e inutilmente copiamos o mar que deixa de se mover.
Se não estivéssemos perto demais para nos enganarmos.
Devoramos nossas mãos
e enxergamos como nunca as superfícies evitadas,
os barcos que buscam ser olhados
para depois afundarem tranquilos.
Ninguém sabe quantas vezes os corpos
devem se repetir na noite.
Nosso cansaço aceita o que se desenha nas paredes.
Fazemos do medo o lugar onde moramos
e a partir daí temos sido benevolentes:
fechamos os olhos e o mundo não desaparece.
Não desaparece.
Olhamos uns para os outros, mudos,
à espera do que não conhecemos.
Será possível estar aqui, algum dia,
podendo também ver isto tudo, ver
e dizer, de um minuto a outro,
que mudos como eles
olhávamos o mundo? Que aceitamos olhares trocados,
apenas para nos darmos consolo?
Carregaremos a culpa
de nos tocarmos no escuro e não nos reconhecermos.
Falamos e nossas vozes soam estranhas.
Hoje, nos dizem o que não somos,
o que não queremos. E, no silêncio, abandonam
nossos corpos até nos trairmos em segredo.
Demoramos a aceitar nossos nomes
e fugimos ao menor sinal de arrependimento.
Somos impacientes. Sabemos que algo vai acontecer;
hoje, amanhã, quem sabe agora mesmo,
do nosso lado, logo à frente,
ou dentro de nós,
como se as carnes mutiladas tivessem olhos e vida.
Ter o peso da gravidade é o que basta.
Desenhos, às vezes, esquemáticos,
desprovidos de representação,
onde procuramos a ilusão
de um espaço que se dilata
para além da dor,
como prova de que tudo está perdido.
Algo está sendo lacerado e romperá nossos corpos.
A sensibilidade nos envergonha,
nós cujos olhos abertos não conseguem apreender
essas imperfeições da forma.
A marca espontânea e a mancha que se espalha,
sombras se movendo como num jogo de cartas.
Nunca saberemos onde estão aqueles que nos ouvem,
excluímos as distâncias, na expectativa
de conseguir o que os olhos não oferecem.
Alguns riem e não se perguntam
como mortos sem olhos podem chorar.
Dizem apenas que o horizonte é definido por um muro
e os incêndios da noite jamais nos tocarão.
Mas há coisas que não se mencionam
quando palavras tão importantes
são esquecidas com facilidade. Um exemplo:
os contornos de todas essas imagens que se oferecem
à incerteza do olhar,
como se, entre respirações que impedem de ouvir
o que há muito se disse,
a única opção fosse ser vítima de um engano inocente,
linguagem nascida de uma fraqueza momentânea.
Em que pensam, mergulhados na escuridão?
É um fenômeno notável e de certo modo científico.
Não pode ser a culpa que os faz belos.
Não pode ser também o castigo justo
que desde já os embeleza.
Nenhuma dessas criaturas tem um lugar fixo,
um contorno fixo e próprio,
não há nenhuma que esteja contando quantas vezes
seus olhos piscam,
nenhuma que seja digna de um vizinho ou um inimigo
e tenha consumido o tempo à sua disposição.
Impossível falar aqui de ordens e hierarquias.
Está excluído que eles sejam o que representam.
Mas esses simples gestos não são gestos de animal?
Indecisos, oscilamos de uma preocupação a outra,
saboreamos o medo e temos a inconstância do desespero.
O que se resgata do abrigo dos corpos?
Não vemos os olhos e o que eles seguem.
De uma extremidade a outra apenas o silêncio.
E, à mesa, uma sensação de melancolia é marcada
pelo vasto espaço
entre a comida e as mãos.
Onde a comida existe para além da austeridade dos corpos.
As mãos há muito não conseguem
manter afastado aquilo que as incomodam.
Cada movimento dos dedos expõe a grande reunião
dos animais mortos.
Conversamos sem que nos entendam
e inutilmente copiamos o mar que deixa de se mover.
Se não estivéssemos perto demais para nos enganarmos.
Devoramos nossas mãos
e enxergamos como nunca as superfícies evitadas,
os barcos que buscam ser olhados
para depois afundarem tranquilos.
Ninguém sabe quantas vezes os corpos
devem se repetir na noite.
Nosso cansaço aceita o que se desenha nas paredes.
Fazemos do medo o lugar onde moramos
e a partir daí temos sido benevolentes:
fechamos os olhos e o mundo não desaparece.
Não desaparece.
Olhamos uns para os outros, mudos,
à espera do que não conhecemos.
Será possível estar aqui, algum dia,
podendo também ver isto tudo, ver
e dizer, de um minuto a outro,
que mudos como eles
olhávamos o mundo? Que aceitamos olhares trocados,
apenas para nos darmos consolo?
Carregaremos a culpa
de nos tocarmos no escuro e não nos reconhecermos.
Falamos e nossas vozes soam estranhas.
Hoje, nos dizem o que não somos,
o que não queremos. E, no silêncio, abandonam
nossos corpos até nos trairmos em segredo.
Demoramos a aceitar nossos nomes
e fugimos ao menor sinal de arrependimento.
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