Escritas

SEIS ESTROFES EM CONSTRUÇÃO

António Amaral Tavares

1.

A boca é às vezes o deserto

vem da serra o ar como um clarão matar a sede

às pontas queimadas do silêncio.

2.

Obscuras palavras

que por promessa atravessaram

de corpo mudo a noite.

Luzem.

3.

Uma letra

uma sílaba que lhes falte

e as palavras assim prenhes de mistério

terão na tarde o seu florir.

4.

A solidão procura as árvores longe do mar

a pele seca queimada pelo frio

do vento ninguém saberá domar as vagas.

5.

Ainda do vento:

levou para o exílio as minhas mãos

cartas chegam de lá contando tudo sobre o rapto

foi tudo plano do esquecimento.

6.

Como se chovesse e o entardecer

não soubesse que a noite que vem

não é a que ele esperava.