Lista de Poemas
Salomé
Não faz nenhum sentido,
Estória tão antiga...
— Eu te amo, eu disse,
Em meu vestido azul
Que um girassol floria.
— Eu também. E teu corpo
Encostado
Ao meu corpo, tremia.
Embriagada eu dançava,
Dilacerando os vestidos.
A interdição entre nós
Crescia como um bicho,
Serpente de pele lisa
E anéis coloridos.
Tantos anos depois
Ainda sonho com isso,
Um brilho de lâmina
E o sangue
A escorrer no ladrilho.
O tempo todo e eu sabia
Que, arrancados os véus,
Restaria o suplício. Restariam
As feridas. Um corpo ausente
E a lenda, de um remoto país
Onde habitei um dia.
Ó funesta tentação
De voltar àquela tarde
Em que dançando selvagem
Ao som de flautas,
Congelei a tua imagem
No fundo das retinas.
O topázio do sol
Ardia como brasa
E eu lavei as mãos
E limpei as sandálias.
No espelho, meu rosto,
Tinha a carne das estátuas.
Na espessura do silêncio,
Um gotejar de mágoa.
Na bandeja, os despojos,
Ainda tintos de vinho,
A cabeleira e os olhos
Acesos como círios.
Tantos anos depois
Não faz mesmo sentido
Mas guardo ainda o espelho
Onde espreito minha sorte,
Onde dia e noite espreito
A sombra que flutua
E se cola
Como máscara, em meu rosto,
Como chaga no coração,
Bem no peito onde o tempo
Enfiou sua adaga.
E danço como nunca mais
Dancei. O rei agora dorme,
Dourado, em seu sarcófago.
Mas ainda tenho os véus,
A bandeja e a espada.
Barragem
Subitamente o rio
(argila e metal)
Se recompõe
E pára.
Somente a fúria
Calma do gesto
Que se disfarça.
Barragem ou poço
(argamassa)
Simetria de iludidos
Nas linhas duras
Do cais.
Talvez a sombra
íris-pupila
Que se adelgaça.
Recua e passa.
O Avião
Aço-metal
Linear o traço.
E o rastro.
Sombra vazia
Do acaso,
Devorando intuições,
Cansaços.
Tão frio-aço (metal)
Vapor de sonho
No espaço.
Perspectiva
(A que me oponho)
De ciciadas palavras,
De mesuras,
De faces decalcadas
De outras faces
E de sentenças duras.
Este é um mundo-mentira
(Não me enganam)
Da espiral de cinza.
Do frangalho do sonho.
Onde a espera faz-se inútil
E o tempo é nada.
Mundo-agora.
O demônio com seus filtros
O desvairado cachorro.
Sua matilha.
Semeando este chumbo,
Esta ameaça.
Duro é o espreitar do olho
Em cada face.
Na boca devastada
A fome pasce
E a mão ensaia o gesto
E se disfarça.
Inquisição
Com alfinetes
E ele dizia que NÃO
E perguntavam.
E cortaram seus dedos
E o lançaram
Bem no fundo do poço
E ele dizia que não, que não, que não
E seus cabelos cresciam como chamas.
Minogram
Côncavo das virtudes.
Esquece o labirinto.
Não cogites,
Devora
Trajetória
Que decepei a cabeça
De Holofernes
E apascentava os leões
Com vinhos de Marsala.
Eu,
Que dormi com Pizarro
Numa tenda encarnada,
Sacerdotisa do jaguar
E da serpente emplumada.
Eu,
Maria, a Sanguinária,
Isabel, a Católica,
Rainha destronada
Inocente e assassina.
Hoje masco chicletes
Perfumados a menta,
Estrela absoluta
Dos filmes de pornô.
Banquete
que eu bebo
É o preço
De um homem.
O prato que eu como,
Sem fome,
É o salário
Da fome
De um homem.
Mas,
O sonho que eu travo
Com fúria nos dentes
É somente a metade
Do sonho
De um homem.
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