Lista de Poemas

Setembro à espera da Primavera

Quero de tudo para este setembro, do que seja encanto floral
Quero alucinar-me nas mãos juvenis dessa mulher e declarar
Meu amor, na presença matutina, como nunca tivesse amado
Quero amar nesta primavera, mais que em todos os invernos
Quero ouvir vozes e cantos dos pássaros pelos amanheceres
Pois essa é como a voz da paixão, que é delicada e complexa
Quero o teu corpo e braços, onde guardarei todos os abraços
Quero as ruas da cidade à beira mar iluminada ao sol poente
O vermelho tomar conta do azul, riscando uma linha no mar
Quero tudo invulgar para setembro, toda forma de ser gentil
Quero estar à luz da tarde ao lado da namorada perfumada
Pois o amor é a luz e a rosa, a rima que meus versos não têm
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Mudança de Rumo

Dedique um pouco de tempo apenas para ouvir
Não adianta gritar mais e mais alto desse modo
Pois então existirão chances de você descobrir
Apenas se pergunte se isso é real ou se é comum
Dê uma olhada na distância, todo o desconforto
A necessidade de estar como numa corda bamba
E diga-me se isso é tudo que nós compartilhamos
Porque esse tudo é nada, assim é só a escuridão
O rato corre na roda atrás de nada, dia após dia
Sempre tive fé em nós, mas parece que fui só eu
Caminhei sobre caminhos de fogo, dor e silêncio
Tantas vezes te levei à terra firme, passo a passo
Eu era o cão correndo atrás do rabo e feliz por isso
Mas, muita coisa mudou e me vejo cavar o túmulo
Onde eu mesmo irei deitar se abandonar os sonhos
A morte chama meu nome e eu preso neste vazio
Você verá que agora, vou saltar no próximo sinal
E a vida antiga, será só sua, faça dela o que quiser
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Distância

Foram numerosos silêncios tão crus quanto ásperos
Uma fome insaciada, uma névoa de muito desalento
Mãos distantes a se buscar ébrias em meio ao sonho
Foram tempos de um nó insano a arder na garganta
Foi o frio da vida seguindo numa angústia sem saída
Foi a dor da perda num reencontro de cartão postal
Tal a dor que dói à terra a flor que se lhe desenraiza
Onde restam cicatrizes que nem o tempo vai apagar

Mas a mão do destino esconde segredos em silêncio
Mantém em si todas razões que a razão desconhece
Com esmero de reduzir a nada todas as construções
no que seja improvável; Romper as impossibilidades
de tudo aquilo que se pudesse nomear de impossível
No ventre que gera a vida está o germe da renovação
Para se fazer tempo de reencontro, de reaproximação
Acalmar as dores, angústias, dúvidas e hipertensões

Enfim uma flor se desabrocha, é a vida reeditando-se
Nos portais do espaço e tempo semeamos esperança
Para reaprender que distância é apenas uma ficção
Chegas no sonho, mas és corpo, és carne e realidade
Cada vez que nossas almas se encontram no infinito
As memórias de vida se refazem na energia ancestral
O nosso tempo já não é como nos relógios sonolentos
Não haverá monumentos ou heranças de nosso viver

Devo falar do que há muito tenho guardado em mim
Já devia ter te dito: dá-me a tua mão e fecha os olhos
Aconchega tua cabeça sobre meu peito neste abraço
Sem imaginar se é possível ou distante, sem projetos
Apenas fica. Seja para sempre ou apenas um instante
Mas que tenha a duração da eternidade dos amantes
Sempre me pertencerás na minha ilusão de nós dois
O existir não tem outro sentido senão o que criamos
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Longe

De cabeça baixa estavas e parecia que me fitavas
Teus seios afloravam da renda do vestido de festa
Na parte entreaberta sobre o teu ombro esquerdo
Nessa última imagem que vi de ti já não tinhas vida
A dor me trespassa o peito, já nem consigo chorar
Estendo a mão com tremor, alcanço teu braço nu
Tento te imaginar como há horas atrás e te cobrir

Palavras tínhamos dito, decisões seguras e rápidas
Decidimos com leveza as direções de nossas vidas
Pois sabíamos toda luta que teríamos a enfrentar
Para reunir nossas vidas e esperanças num futuro
Volto a nossa noite passada. Foi algo inesquecível
Cada uma era sempre como se fora a primeira vez
Mas esta não. É a última vez, jamais vais retornar

Sinto-me em um deserto de areias negras sob o sol
Elevo os olhos aos céus para buscar por respostas
Mas não vejo nada, não há uma luz, não há nem ar
Privado de ti me quedo vencido em meio a sangue
Porque queria te seguir, te rever dizendo que sim
Mas não tenho essa graça. É só silêncio e angústia
Não há um mínimo alívio para aplacar essas dores
Já nem vejo mais, escurece, ouço sirenes ao longe

Sabes quanto eu queria te tirar dali, trocar contigo
Nas profundas chagas que eu mesmo abri em mim
Pensei que assim iria te seguir, te amar pelos céus
Estaríamos num espaço azul e anjos nos sorririam
Trazendo a ti de volta para meus braços refeitos
Mas tudo que encontrei foram somente sombras
De tanta tristeza esse meu coração quase morto
Vai revivendo solitário o ar quente daquela manhã


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Fuga de um inverno revisitado quando se esperava poder ver as flores de uma nova primavera.


O inverno reassoma intempestivo
e ficam na memória dias mais cálidos
O por do sol ardendo em brilhos
Tal qual a forja de uma ferraria
Acaso fosse verão, com o sol poente
Sentar-me-ia a olhá-lo, deslocado
das correntes do tempo cotidiano
Sumiriam as distâncias em minha mente
onde imperariam as transparências
Passado e futuro - conceitos fugidios
da consciência, submersa no irreal
Libertar-me-ia dos cordões umbilicais
que a vida insistiu em me atar
Os signos se apresentam sucessivos
os vejo, abismado, repletos de sentidos
Ocupando as faces lógicas dos losangos
com a precisão geométrica da luz
A luz me devolve ao real indesejado
Retorno ao presente de frios cortantes
Abrigo as mãos no calor dos bolsos
Retiro-me, irresignado, ao abrigo de casa.


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Partida

O frio austral revisita o poema perdido na tarde à beira mar
O poeta eterniza a palavra lançada sobre a calma do papel
Que auscultou dos lábios da aragem, sua tristeza silenciosa
Grito teu nome talhado em minha pele como antiga cicatriz
Para te dizer da imensa mudança a qual ainda não acreditas
Carrego secretos sonhos infantis em navegares intermináveis
Trago sons de flauta e perfume de flores à procura do gesto
Que possa afastar os fantasmas febris e secar tuas lágrimas
Pois jamais se restabelecerá o abandono, o vazio da solidão
Para que só o verbo amar, presente e futuro seja conjugado
Escuta meu coração como fosse a última badalada da tarde
Encontra-me onde a paixão se recolhe, deita no meu ombro
E eu te pronuncio as sonoras sílabas do amor entre a bruma
Para que me escales agreste tatuando marcas em meu peito
E quando amanhecer reste um tanto de ti além deste desejo
Pois terás partido com as estrelas que se vão ao fim da noite
Nos meus ouvidos ainda ecoam teus gemidos entre os lençóis
Deixe-me num último sorriso nesta madrugada que emerge
Deixe-me mais: um doce suspiro antes que tenhas que partir
Da janela, nos dias distantes, em vão choraremos sob o gris
Volto ao silêncio antes que acordem os dolorosos fantasmas
Pois nada existe do outro lado mar a não ser o que sonhamos
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Onde

Na anarquia do silêncio o poema imaginário
Cavalga as palavras quais indizíveis corcéis
Para alcançar verdes sussurros, tão fictícios
Daquele olhar cheio de encanto onde estará
Na anarquia do imaginário o poema silencia
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Esperança

O luar cor de prata emoldurado desse céu azul-profundo
Espalha sua luz quieta sobre a noite da cidade dormente
Nessas noites que abrigam os mistérios desse único olhar
E responde na clara eurritmia, uma inescondível melancolia
Quais suspiros célicos e límpidos, são salmos desta prece
Para ventar os cabelos da amada, que eu quero acariciar

No calor de cabalísticos segredos ou na paz deste verso
Estico as asas para mergulhar nesse céu de ares revoltos
O coração errante do poeta responde com sorriso algente
Ó virgem lacrimosa, pousarás o teu beijo em minha boca?
Quando não estás e sinto o amargo da saudade que vem
Darás a este teu vassalo, o sabor de teus lábios fugidios?

Admiro o luar, ora azul lá fora, na espera da tua chegada
Quem poderá depor se já é tempo das horas mais calmas
O céu é o céu, minh’alma que muda a passo de teu olhar
Por vezes está em festa, enfeitada, cheia de bandeirolas
Noutras anoitece atroz, tal um frio deserto sem emoção
Nessas noites vãs, cada estrela é um ponto de esperança
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Esperança

O luar cor de prata emoldurado desse céu azul-profundo
Espalha sua luz quieta sobre a noite da cidade dormente
Nessas noites que abrigam os mistérios desse único olhar
E responde na clara eurritmia, uma inescondível melancolia
Quais suspiros célicos e límpidos, são salmos desta prece
Para ventar os cabelos da amada, que eu quero acariciar

No calor de cabalísticos segredos ou na paz deste verso
Estico as asas para mergulhar nesse céu de ares revoltos
O coração errante do poeta responde com sorriso algente
Ó virgem lacrimosa, pousarás o teu beijo em minha boca?
Quando não estás e sinto o amargo da saudade que vem
Darás a este teu vassalo, o sabor de teus lábios fugidios?

Admiro o luar, ora azul lá fora, na espera da tua chegada
Quem poderá depor se já é tempo das horas mais calmas
O céu é o céu, minh’alma que muda a passo de teu olhar
Por vezes está em festa, enfeitada, cheia de bandeirolas
Noutras anoitece atroz, tal um frio deserto sem emoção
Nessas noites vãs, cada estrela é um ponto de esperança
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A Descoberta da Poesia

Assim um dia, descobri que posso ver o que a foto não revela
A residir no horizonte interno, invernal e oculto pela pálpebra
Tantos navios naufragados, deserdados neste poço de solidão
Ventos avaros, de um verão já distante, solenes como ícones

Assim um dia, descobri que o mistério maior que eu já escondi
São fragmentos olvidados de mim, dos antigos silêncios carmim
Dos perfumes ociosos de jasmim, absolvidos de todo o pecado 
Só por estarmos juntos, duas almas a habitar uma só paisagem

Assim um dia, descobri que não se conhece da vida pela janela
Mas a imergir o império das esperas melancólicas dos domingos
Perscrutar nos porões que se velaram as mais densas tristezas
Ouvir as vozes anônimas da verdade que desafia nossa higidez

Assim um dia, descobri o poema, amigo ora sublime, ora cruel
A retratar o martírio de quem se abandonou a sonhar o amor
Em vocábulos ceifados do peito, ancorados na folha de papel
Cristalinos como as auroras ou sombrios quais noites sem luar

O poema dilacera os mistérios da linguagem, santa ou meretriz
Fere de morte a inércia da língua e salta da página ao coração
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