Escritas

Lista de Poemas

Primeiro Soneto

(À lembrança de Carlos Eduardo)
Meu amor que ainda não me viu
É um lago profundo onde eu vejo
Um mago que espelha em seu perfil
As águas que refletem meu desejo.

Meu amor que tanto eu procurei
Me procura hoje em seu delírio
E sábio de rotas que eu não sei
Ignora todo o meu martírio.

Meu amor que me pesquisa há tanto
Irá cansar-se e aforgar-se em pranto
Pois não suporta mais andar a esmo

E na própria lágrima com espanto
Vai encontrar as fontes do seu canto
Desligado de mim, fato em si mesmo.

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Quarto Soneto

Os lírios que me vêem te olhar
Não sabem quando é noite ou quando é dia,
Nem sabem se é do sol ou do luar
A luz que os meus olhos extasia.

Os campos que me ouvem te chamar
Não lembram se é pranto ou melodia
Os sons que eu componho nesse mar
Remoto lá em minha fantasia.

De que valem todos esses campos?
De que vale no vale qualquer lírio,
Se não fia nem tece o teu rosto

Embuçado com os panos do delírio?
De que vale toda a natureza
Se eu já trago em mim tua beleza?

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Quinto Soneto

O primeiro véu foi densa névoa, Narciso,
E foi preciso com um sopro eu rasgar.
O segundo véu foi só a mágoa, água
Para navegar. Outro ainda irá restar?

Um terceiro véu vem do luar, amor, ou
Dessa garça que eu toco ao te tocar? Ou
Do piano, cujo som ouvi no ar? Será
Que forças eu terei p’ra atravessar? Pois há

De mim a mim um véu maior que todo o mar,
Mas vou ao lar! És maravilha, dos amores
Minha ilha por visitar! És Tordesilha

Me cortando sem cessar e ainda a filha,
Rima que não cesso de aleitar com este mito
Que me ensina a sina, forma prima de amar.

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Segundo Soneto

Meu amor é um antigo montanhês
Que se escondeu na mais estranha gruta.
Há quem diga que em tempos de escassez
Meu amor se transforma em força bruta.

Nestas noites, meu velho se transporta
Na garupa da águia mais sombria,
Sobrevoando a casa cuja porta
Com medo você fecha em correria.

Não vê que tão esquivo aldeão,
Não sabe que tão incrível eremita
Pesquisa em meio à treva um só clarão

Que ilumine a caverna onde habita?
E no entanto na própria gruta escura
Mora o sol, toda a luz que ele procura.

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Terceiro Soneto

Meu amor é uma louca feiticeira
Condenada na perdida Idade Média.
Dançando, meu amor foi p’ra fogueira,
Gozando nesta hora de tragédia.

O carrasco encantado com a surpresa
De tal riso dado em meio à agonia
Rezava pela bruxa sem certeza
Se o que via era fato ou fantasia.

Pelos tempos, o incêndio que ainda cresce
Vai queimando tão bela bailarina
Assistida pelo seu carrasco em prece

Que não entende que aquilo que a fascina
É na chama haver espelho que enternece
Pois o fogo tem um rosto de menina.

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