Lista de Poemas

Primeiro Soneto

(À lembrança de Carlos Eduardo)
Meu amor que ainda não me viu
É um lago profundo onde eu vejo
Um mago que espelha em seu perfil
As águas que refletem meu desejo.

Meu amor que tanto eu procurei
Me procura hoje em seu delírio
E sábio de rotas que eu não sei
Ignora todo o meu martírio.

Meu amor que me pesquisa há tanto
Irá cansar-se e aforgar-se em pranto
Pois não suporta mais andar a esmo

E na própria lágrima com espanto
Vai encontrar as fontes do seu canto
Desligado de mim, fato em si mesmo.

908

Quinto Soneto

O primeiro véu foi densa névoa, Narciso,
E foi preciso com um sopro eu rasgar.
O segundo véu foi só a mágoa, água
Para navegar. Outro ainda irá restar?

Um terceiro véu vem do luar, amor, ou
Dessa garça que eu toco ao te tocar? Ou
Do piano, cujo som ouvi no ar? Será
Que forças eu terei p’ra atravessar? Pois há

De mim a mim um véu maior que todo o mar,
Mas vou ao lar! És maravilha, dos amores
Minha ilha por visitar! És Tordesilha

Me cortando sem cessar e ainda a filha,
Rima que não cesso de aleitar com este mito
Que me ensina a sina, forma prima de amar.

882

Terceiro Soneto

Meu amor é uma louca feiticeira
Condenada na perdida Idade Média.
Dançando, meu amor foi p’ra fogueira,
Gozando nesta hora de tragédia.

O carrasco encantado com a surpresa
De tal riso dado em meio à agonia
Rezava pela bruxa sem certeza
Se o que via era fato ou fantasia.

Pelos tempos, o incêndio que ainda cresce
Vai queimando tão bela bailarina
Assistida pelo seu carrasco em prece

Que não entende que aquilo que a fascina
É na chama haver espelho que enternece
Pois o fogo tem um rosto de menina.

837

Segundo Soneto

Meu amor é um antigo montanhês
Que se escondeu na mais estranha gruta.
Há quem diga que em tempos de escassez
Meu amor se transforma em força bruta.

Nestas noites, meu velho se transporta
Na garupa da águia mais sombria,
Sobrevoando a casa cuja porta
Com medo você fecha em correria.

Não vê que tão esquivo aldeão,
Não sabe que tão incrível eremita
Pesquisa em meio à treva um só clarão

Que ilumine a caverna onde habita?
E no entanto na própria gruta escura
Mora o sol, toda a luz que ele procura.

875

Quarto Soneto

Os lírios que me vêem te olhar
Não sabem quando é noite ou quando é dia,
Nem sabem se é do sol ou do luar
A luz que os meus olhos extasia.

Os campos que me ouvem te chamar
Não lembram se é pranto ou melodia
Os sons que eu componho nesse mar
Remoto lá em minha fantasia.

De que valem todos esses campos?
De que vale no vale qualquer lírio,
Se não fia nem tece o teu rosto

Embuçado com os panos do delírio?
De que vale toda a natureza
Se eu já trago em mim tua beleza?

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Identificação e contexto básico

Mirella Márcia é uma poetisa contemporânea. Sua nacionalidade e língua de escrita são o português.

Infância e formação

A infância e formação de Mirella Márcia são pouco documentadas em fontes públicas, mas sua escrita revela uma sensibilidade apurada e uma profunda capacidade de observação, sugerindo um percurso marcado pela leitura e pela introspecção.

Percurso literário

O percurso literário de Mirella Márcia é marcado pela publicação de sua obra poética, que tem vindo a ganhar reconhecimento no panorama literário. A sua escrita demonstra uma evolução na exploração de temas e na maturação estilística.

Obra, estilo e características literárias

A obra de Mirella Márcia destaca-se pela exploração de temas como o amor, a saudade, a passagem do tempo e a busca por sentido. Utiliza uma linguagem poética densa, repleta de metáforas e imagens evocativas, que criam uma atmosfera lírica e introspectiva. O seu estilo é marcado pela musicalidade e pelo ritmo cadenciado dos versos, muitas vezes explorando formas mais tradicionais mas com uma abordagem contemporânea. A voz poética é frequentemente pessoal e confessional, mas ressoa com a universalidade das emoções humanas.

Contexto cultural e histórico

Mirella Márcia insere-se no contexto da poesia contemporânea em língua portuguesa, um período de grande diversidade estilística e temática. A sua obra dialoga com as preocupações existenciais e sociais da atualidade.

Vida pessoal

A vida pessoal de Mirella Márcia, embora não amplamente divulgada, informa a sua escrita com uma carga emocional e uma perspetiva íntima sobre as experiências humanas.

Reconhecimento e receção

A obra de Mirella Márcia tem sido reconhecida pela crítica pela sua qualidade lírica e pela profundidade das suas reflexões. A sua poesia tem vindo a conquistar um público leitor atento à sensibilidade e à autenticidade da sua expressão.

Influências e legado

É possível que a obra de Mirella Márcia seja influenciada por grandes nomes da poesia lírica e introspectiva. O seu legado reside na capacidade de tocar o leitor através da exploração honesta e bela das emoções e das questões existenciais.

Interpretação e análise crítica

A poesia de Mirella Márcia permite múltiplas leituras, convidando à reflexão sobre temas universais como o amor, a perda e a resiliência humana. A densidade imagética e a exploração de paradoxos existenciais são aspetos centrais na análise crítica da sua obra.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Aspetos menos conhecidos da sua personalidade e hábitos de escrita não são amplamente divulgados, mantendo um certo mistério em torno do seu processo criativo.

Morte e memória

Não aplicável, dado ser uma autora contemporânea.