Escritas

Lista de Poemas

Âmbar

Um tijolo
sabe a casa
e toda sua
mágica linguagem
de portas,
janelas,
outros tijolos
e espaços vazios.
Sabe a linhagem
e o alinhavo
de seus mortos,
as panteras
fosforescentes
de seus vivos.
Um tijolo
sabe a casa
mesmo que
falem apenas
as ruínas
e mesmo
que se calem,
um tijolo
sempre sabe.

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Rápido Monólogo do Caçador Com Sua Caça

Trago
Pardos
Os olhos
De cobiça
Que atiro
Sobre ti,
Teu verbo/teu sexo:

Tua presa
de
marfim.

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Premissa Perdida da Paracelsus

A alquimia das cozinhas
Se assemelha
À alquimia de escrever
E esta, por sua vez
À alquimia de pintar:
Digo do tempero ( A têmpera )
Das palavras,
Seus cheiros de orégano e coentro
E ainda das claras aquarelas
Batidas em neve
( Os conté, alvaiades e aguadas,
Seus doces e seus vinagres... )
Digo da transmutação
E também da mimésis camaleônica
Que tudo transforma,
Tudo com(funde):
Alimento,
Letra,
Tinta...

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Da Morte pela Manhã

A manhã seguinte
decalcou quase toda
a manhã anterior
ainda fixa nos olhos dela
( e todas as outras manhãs
subseqüentes
decalcariam
detalhes cada vez menores
daquela última
até que não houvessem
mais olhos.)

👁️ 889

Do Meu Amor Para a Tua Infância

O menino de porcelana
Brincava dentro da fotografia
Alheio
Ao meu fogo que o via de longe.
Ele, que não sabia da porcelana,
Cavalgava a árvore,
Seu cavalinho de pau
( As árvores são dois meninos

Há tempos imemoriais ).
Ele, que não sabia da porcelana,
Só conhecia a heráldica das arranhaduras
( Doloridos dragões de línguas rubras ).

...

Do lado de cá,
Santo anjo do Senhor,
En garde
Que meu incêndio
O observa!

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Vampiro

A palavra
querida
do teu nome
é morcego
nas minhas
madrugadas
e consome
o meu sangue
e minha alma.
Consome:
que és incêndio
em minha casa...

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O Violino

Entregue a sutil carícia
Da curva do queixo
Mal finge
Que freme mesmo
É ao balé febril
Das pontas dos dedos.
( Talhado em nobre madeira,
O filho de Eros,
É dado ao gozo animal
Ao humano sexo... )

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Amiga

Amiga,
lavei os pratos,
mas a mágoa
mastigou-me
o inteiro dia
— esse pedaço
de carne crua
com nervos difíceis
aos dentes,
que sou —.
Se ao menos
eu pudesse banhar
meus pés
na bacia de ágata
do meu avô,
não perdoaria tanto
meus sentimentos
mesquinhos
e debruçaria-me
sobre o balcão
sem rir
e seria
mais triste e grave
e, claro, vestiria luto
por tudo
que foi morto
na minha e tua amizade.
Mas, como vês,
Não sei da bacia branca
donde eu sairia
apaziguada.

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Grindley

Os meninos
da rua velha
querem seda colorida
para povoar os azuis
da xícara clara
de pipas.

Também
balões multicores
e aladas traquinagens
querem os meninos tafuis
do pires
de bordas douradas

(Os meninos
da rua velha:
ladrões do tempo
— crianças —
senhores de prata e luz
gravados na porcelana).

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Segredo de Camarinha

Cora,
teu retrato amarelado de
moça
fala à minha dor.

Teu retrato-butterfly antigo
pousa,
pousa sobre
a rosa remendada
de minha dor.

Aquele rapaz, Cora,
que tinha o medo
(o medo que têm todos os homens)
e que não pressentiu a espera ancestral,
aquele rapaz, Cora,
o desencontrei também.

Ele vestia
o mesmo sorriso
e o mesmo cheiro bom de terra
e o mesmo medo
(ainda o medo)
o medo
ele vestia.

(O que há de se fazer,
Cora,
com um mal destes de amor ?)

Cora,
teu antigo retrato de moça
baila-bailarina
sobre a minha dor.

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