Escritas

Lista de Poemas

Sonambulismo

Falam tanto de ti, pobre cigarro:
“Veneno que entorpece e que asfixia!”
No entanto, o teu aspecto bizarro
traz-me, à memória, uma filosofia.

Nessa ânsia de viver tão destemida
vieste ao mundo deixando a carteirinha.
O fósforo aceso transmitiu-te a vida
e a tua vida foi igual à minha…

Começaste a viver entre os meus dedos.
Levei-te aos lábios. Trêmulas volutas
de fumo azul fiando mil segredos
desprenderam-se no ar bailando astutas…

Fumo! Sonho! Ideal da mocidade!
Tu formas tudo quanto a gente quer:
ora uma sombra vaga de saudade,
ora um perfil querido de mulher!…

Ó meu cigarro! ó fumo azul amigo,
quantas vezes — mistério singular! —
minh’alma não bailou contigo
apaixonadamente pelo ar?!

Ai! quem me dera o fumo azul de outrora!…
Cigarro! dei-te o trago derradeiro!
De ti, amigo, só me resta, agora,
Uma saudade e a cinza no cinzeiro!
👁️ 721

Grito de angústia

Minh’alma! Árvore! Vem de tua fronde
a encarnação da dor num grande grito!
abres os braços, gritas ao infinito,
mas a voz do silêncio é quem responde!

Tão moça és! No entanto, não sei onde
possa encontrar o bálsamo bendito
que cure a imensa chaga que se esconde
pelas entranhas do teu ventre aflito!

E a maior dor das tuas grandes dores
é a de viver aos sóis das Primaveras
sem a fecundação que, ansiosa, esperas.

Tua verdura simboliza o luto!
— Talvez fosse melhor nunca dar flores
Do que florir, somente, e não dar fruto!
👁️ 662

DENTRO DA NOITE CHEIA DE LUA-CHEIA

Venha cá, meu amor! olhe: a lua prateada
fica zangada quando lhe vê!
É inveja que ela sente de Você!
Você é linda como um Sonho
vestido de seda… É por isso que eu ponho
a minha vida na sua mão de fada…

A minha mão fria na sua
mão… Mas esta carícia silenciosa é pouca
e, até, pode ser feita com artifício…
O silêncio subiu, foi conversar com a lua…
O amor, meu amor, não mede sacrifício:
Uma sua boca à minha boca…

Depois olhe pra mim…
assim… assim…
como só Você sabe olhar!
Como seus olhos são lindos! E eu vejo
os meus olhos lá no fundo do seu olhar…
Dê-me outro beijo.
Meu amor, satisfaça o meu desejo,
dê-me outro beijo porque
se Você não m’o der não lhe darei minh’alma
para Você
guardar dentro de sua alma!…
👁️ 820

Eu gosto muito de você

Talvez você saiba, talvez,
talvez não
saiba bem
desta muito espiritual
e romântica paixão,
que vive em meu coração,
desde a hora sonâmbula, na qual,
linda como ninguém,
você me apareceu pela primeira vez !

Eu, um fino galanteador,
─ nem precisa dizer ! como todo rapaz,
doidinho por você, que é, como ninguém, linda,
não consegui ainda
dizer-lhe uma palavra lírica de amor
ou uns versos sentimentais.
As inúmeras mulheres,
que, sempre, namorei por distração,
sabiam, logo, do meu pensamento !
No meio
esplêndido dum salão,
às vezes, muito cheio
de gente, ou em outra qualquer parte,
com um engano sutil e muita arte,
eu desfolhava os malmequeres
de suas mãos e lhes dizia, num momento,
mil frases de galanteio!

Mas você vê
que
quando me animo para
fazer-lhe uma levíssima declaração
sinto um aperto no coração!
O amor puro e sincero nunca se declara:
eu gosto muito de você!
👁️ 669

DOMINGO NO RECIFE

O número encarnado no calendário,
retalho do vestido esvoaçante
na tarde de regata, derradeira
mancha de sangue,
o corpo recomposto nessa mancha
deslizando na superfície do domingo.

Domingo urbano colorido de acácias,
que acharam nesta floração apenas
as sombras dos antigos namorados
(Ó pedra tumular do banco do jardim público).

Dia nítido lavado pelo Capibaribe,
o rio ninando o Recife,
o Recife criança em seus braços maternos.
Domingos de várias ressurreições,
da mãe levando o menino para a missa,
do primeiro cinema impróprio pra menores,
do circo, do clarinete de “seu” Miguel.

Domingo colonial imutável no bairro de São José.
Vêm da igreja a música do órgão e as vozes femininas
de dois séculos.
Um voo de pomba acaricia o espaço quieto.
O Espírito Santo baixará no pátio de São Pedro.

Domingo feito de silêncio e sombras descendo a escada,
perturbas somente a paz dos arquivos,
libertas o tempo prisioneiro nas gavetas.
As palavras das cartas soam como vozes,
as dedicatórias saem do mutismo
da caligrafia para os lábios úmidos dos retratos.

Exuma-se o baralho
na mesa de jantar (as primas em dezembro)
os valetes dormindo para sempre,
as damas louras consumidas.

Vejo, do cais da Rua da Aurora, o domingo fugindo nas ioles,
na cor da tarde, no voo dos passarinhos,
na bicicleta de Suzana.

Assisto ao suicídio do domingo no Recife,
o domingo jogando-se da torre do Diario
na música do carrilhão batendo meia-noite.

Receio de entrar na madrugada fria.
Recolho na praça as horas despedaçadas.
Quero que este domingo seja a antecipação da eternidade.
👁️ 674

Versos ao meu cigarro

Falam tanto de ti, pobre cigarro:
“Veneno que entorpece e que asfixia!”
No entanto, o teu aspecto bizarro
traz-me, à memória, uma filosofia.

Nessa ânsia de viver tão destemida
vieste ao mundo deixando a carteirinha.
O fósforo aceso transmitiu-te a vida
e a tua vida foi igual à minha…

Começaste a viver entre os meus dedos.
Levei-te aos lábios. Trêmulas volutas
de fumo azul fiando mil segredos
desprenderam-se no ar bailando astutas…

Fumo! Sonho! Ideal da mocidade!
Tu formas tudo quanto a gente quer:
ora uma sombra vaga de saudade,
ora um perfil querido de mulher!…

Ó meu cigarro! ó fumo azul amigo,
quantas vezes — mistério singular! —
minh’alma não bailou contigo
apaixonadamente pelo ar?!

Ai! quem me dera o fumo azul de outrora!…
Cigarro! dei-te o trago derradeiro!
De ti, amigo, só me resta, agora,
Uma saudade e a cinza no cinzeiro!
👁️ 661

Comentários (0)

Iniciar sessão ToPostComment

NoComments