Martim Soares

Martim Soares

Martim Soares foi um trovador medieval galego-português, ativo no século XIII. A sua obra, inserida na tradição da lírica galego-portuguesa, reflete os costumes e a mentalidade da nobreza da época. As suas cantigas, embora escassas em número, são representativas do cancioneiro trovadoresco, abordando temas como o amor cortês e a sátira social com a mestria característica dos poetas da sua corte.

n. , Portugal · m. , Portugal

34 694 Visualizações

Pero Rodrigues, da vossa mulher

Esta outra cantiga fez a Pero Rodrigues Grongelete de sua mulher que havia prez que lhe fazia torto

Pero Rodrigues, da vossa mulher,
não acrediteis no mal que vos digam.
Tenho eu a certeza que muito vos quer.
Quem tal não disser quer fazer intriga.
Sabei que outro dia quando eu a fodia,
enquanto gozava, pelo que dizia,
muito me mostrava que era vossa amiga.

Se vos deu o céu mulher tão leal,
que vos não agaste qualquer picardia,
pois mente quem dela vos for dizer mal.
Sabei que lhe ouvi jurar outro dia
que vos estimava mais do que a ninguém;
e para mostrar quanto vos quer bem,
fodendo comigo assim me dizia.

Português antigo

Pero Rodriguiz, da vossa molher
nom creades mal que vos home diga,
ca entend'eu dela que bem vos quer,
e quem end'al disser, dirá nemiga;
e direi-vos em que lho entendi:
em outro dia, quando a fodi,
mostrou-xi-mi muito por voss'amiga.

Pois vos Deus deu bõa molher leal,
nom tenhades per nulha jograria
de vos nulh'home dela dizer mal,
ca lh'oí eu jurar em outro dia
ca vos queria melhor doutra rem;
e, por veerdes ca vos quer gram bem,
nom sacou ende mi, que a fodia.
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Martim Soares foi um trovador galego-português do século XIII. A sua atividade poética insere-se no contexto da lírica medieval galego-portuguesa, sendo um dos representantes da produção literária que floresceu nas cortes da Península Ibérica. A sua obra, embora limitada em número de cantigas atribuídas, é valiosa para o estudo do cancioneiro trovadoresco da época.

Infância e formação

A informação sobre a infância e formação de Martim Soares é escassa, como é comum para a maioria dos trovadores medievais. Sabe-se que pertencia, provavelmente, ao círculo da nobreza, um requisito para a atividade trovadoresca, que envolvia uma educação que incluía o conhecimento das artes e das convenções sociais da corte.

Percurso literário

O percurso literário de Martim Soares está marcado pela autoria de algumas cantigas de amor e de escárnio e maldizer. Estas cantigas foram recolhidas em cancioneiros medievais, sendo as mais conhecidas aquelas que foram incluídas no "Cancioneiro da Vaticana" e no "Cancioneiro Colocci-Brancuti". A sua atividade poética parece ter ocorrido durante a segunda metade do século XIII.

Obra, estilo e características literárias

As cantigas de Martim Soares refletem os temas e as formas da poesia trovadoresca da época. Nas suas cantigas de amor, explora os motivos do amor cortês, com a exaltação da dama e a submissão do trovador. Nas cantigas de escárnio e maldizer, evidencia uma veia satírica, criticando costumes sociais e comportamentos de figuras da corte, utilizando uma linguagem mais direta e, por vezes, mordaz. A métrica utilizada é a típica das cantigas de amigo, redondilha maior (sete sílabas métricas), com estrofes de cinco versos, com refrão.

Contexto cultural e histórico

Martim Soares viveu num período de intensa atividade cultural nas cortes da Península Ibérica, onde a poesia trovadoresca era uma forma de entretenimento e expressão social importante. A sua obra insere-se na tradição da lírica galego-portuguesa, que era a língua vernácula utilizada por trovadores de toda a região.

Vida pessoal

Os detalhes sobre a vida pessoal de Martim Soares são praticamente inexistentes. Como a maioria dos trovadores, a sua biografia é reconstruída a partir da sua obra e dos registos que a mencionam.

Reconhecimento e receção

O reconhecimento de Martim Soares advém da sua inclusão nos principais cancioneiros da lírica galego-portuguesa, o que garante a sua posteridade e o seu estudo por parte dos investigadores.

Influências e legado

Como trovador medieval, Martim Soares insere-se numa vasta tradição poética que influenciou a literatura peninsular. A sua obra, embora limitada, contribui para o património da poesia galego-portuguesa.

Interpretação e análise crítica

A análise crítica das cantigas de Martim Soares foca-se na sua adequação aos modelos genéricos (amor, escárnio, maldizer) e na sua capacidade de retratar os costumes e a mentalidade da sociedade da época.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

É possível que Martim Soares tenha tido uma ligação a alguma corte específica, mas os dados são imprecisos.

Morte e memória

Não há informação específica sobre a morte de Martim Soares. A sua memória perdura através das cantigas que lhe são atribuídas nos cancioneiros medievais.

Poemas

41

Maravilho-M'eu, Mia Senhor

Maravilho-m'eu, mia senhor,
de mim, como posso sofrer
quanta coita me faz haver,
des que vos vi, o voss'amor;
e maravilho-me log'i
de vós, por leixardes assi
voss'hom'em tal coita viver.

Aquesto dig'eu, mia senhor,
por quanto vos quero dizer:
porque vos fez Deus entender
de todo bem sempr'o melhor;
e a quem Deus tanto bem deu
devia-s'a nembrar do seu
homem coitado e a doer

de tam coitado, mia senhor,
com'hoj'eu vivo, que poder
nom hei de gram coita perder
per al já, se per vós nom for;
e se quiserdes, perderei
coita per vós ou morrerei;
ca todo é em vosso prazer.

E a mia coita, mia senhor,
nom vo-la houvera a dizer,
ante me leixara morrer,
senom por vós, que hei pavor
de que têm, senhor, por mal
de quem a seu homem nom val,
pois poder há de lhi valer.

E pois vos outro bem nom fal,
por Deus, nom façades atal
torto qual oídes dizer.
720

Senhor Fremosa, Pois Me Nom Queredes

Senhor fremosa, pois me nom queredes
creer a coita 'm que me tem Amor,
por meu mal é que tam bem parecedes
e por meu mal vos filhei por senhor
e por meu mal tam muito bem oí
dizer de vós e por meu mal vos vi:
pois meu mal é quanto bem vós havedes.

E pois vos vós da coita nom nembrades,
nem do afã que mi o Amor faz sofrer,
por meu mal vivo mais ca vós cuidades
e por meu mal me fezo Deus nacer
e por meu mal nom morri u cuidei
como vos viss'e por meu mal fiquei
vivo, pois vós por meu mal rem nom dades.

[E] desta coita 'm que me vós tẽedes,
em que hoj'eu vivo tam sem sabor,
que farei eu, pois mi a vós nom creedes?
Que farei eu, cativo, pecador?
Que farei eu, vivendo sempre assi?
Que farei eu, que mal dia naci?
Que farei eu, pois me vós nom valedes?

E pois que Deus nom quer que me valhades,
nem me queirades mia coita creer,
que farei eu? Por Deus, que mi o digades!
Que farei eu, se logo nom morrer?
Que farei eu, se mais a viver hei?
Que farei eu, que conselh'i nom sei?
Que farei eu, que vós desemparades?
1 280

Meu Senhor Deus, Se Vos Prouguer

Meu senhor Deus, se vos prouguer,
tolhed'Amor de sobre mi
e nom me leixedes assi
em tamanha coita viver;
ca vós devedes a valer
a tod'home que coita houver.

Ca me seria mais mester;
ca me tem hoj'el na maior
coita 'm que home tem Amor.
E Deus, se vos for em prazer,
sacade-me de seu poder,
e pois fazede-mi al que quer.

E des que mi Amor nom fezer
a coita que levo levar,
Deus! nunca por outro pesar
haverei sabor de morrer
– o que eu nom cuido perder,
mentr'Amor sobre mim poder.
547

Mal Conselhado Que Fui, Mia Senhor

Mal conselhado que fui, mia senhor,
quando vos fui primeiro conhocer!
Ca nunca pudi gram coita perder,
nem perderei já, mentre vivo for;
nem viss'eu vós, nem quem mi o conselhou,
nem viss'aquel que me vos amostrou,
nem viss'o dia 'm que vos fui veer!

Ca des entom me fez o voss'amor
na mui gram coita 'm que vivo viver;
e, por mi a nom leixar escaecer
e mi a fazer cada dia maior,
faz-me, senhor, em vós sempre cuidar
e faz-mi a Deus por mia morte rogar
e faz a vós a mim gram mal fazer.

E quem se fez de mim conselhador
que eu viss'o vosso bom parecer,
aquant'eu posso de vós entender,
de mia morte houve, e de meu mal, sabor;
e, mal pecado!, nom moir'eu por en,
nem moiro, porque seria meu bem,
nem moiro, porque queria morrer.

E porque mi seria mui melhor
morte ca mais esta coita sofrer,
pois nom mi há prol de vo-la eu dizer,
nem vos faz outrem por mim sabedor,
nem mi val rem de queixar-m'end'assi,
nem me val coita que por vós sofri,
nem mi val Deus, nem me poss'eu valer.

Pero, entanto com'eu vivo for,
queixar-m'-ei sempre de vós e d'Amor,
pois conselh'outro nom poss'i prender.
699

Muitos Me Vêm Preguntar

Muitos me vêm preguntar,
mia senhor, a quem quero bem;
e nom lhes quer'end'eu falar,
com medo de vos pesar en,
nem quer'a verdade dizer,
mais jur'e faço-lhes creer
mentira, por vo-lhes negar.

E por que me vêm coitar
do que lhes nom direi per rem
- ca m'atrev'eu em vos amar?
E mentr'eu nom perder o sem,
nom vos en devedes temer,
ca o nom pod'home saber
per mim, se nom adevinhar.

Nem será tam preguntador
nulh'home que sábia de mim
rem, per que seja sabedor
[d]o bem que vos quis, pois vos vi.
E pois vos praz, negá-lo-ei
mentr'o sem nom perder; mais sei
que mi o tolherá voss'amor.

E se per ventura assi for,
que m'ar preguntem des aqui
se sodes vós a mia senhor
que amei sempre e servi,
vedes como lhes mentirei:
doutra senhor me lhes farei,
ond'haja mais pouco pavor.
694

O Que Conselh'a Mim de M'eu Quitar

O que conselh'a mim de m'eu quitar
de mia senhor, porque me nom faz bem,
e me por tam poderos'ora tem
de m'en partir, nunca el houv'amor
qual hoj'eu hei, nem viu esta senhor
com que Amor fez a mim començar.

Mais non'a viu e vai-mi agora dar
tal conselho, em que perde seu sem;
ca, se a vir ou lha mostrar alguém,
bem me faç'eu d'atanto sabedor:
que me terrá mia morte por melhor
ca me partir do seu bem desejar.

Ca, se el vir o seu bom semelhar,
desta dona por que mi a mi mal vem,
nom m'ar terrá que m'eu possa per rem
dela partir, enquant'eu vivo for,
nem que m'end'eu tenha por devedor,
nem outr'home que tal senhor amar.

E pois la vir, se poder-s'i guardar
de lh'aviir com'end'a mim avém,
bem terrei eu que escapará en;

mais d'ũa rem hei ora gram pavor:
des que a vir, este conselhador
de nom poder mim nem si conselhar.
346

Senhor, Pois Deus Nom Quer Que Mi Queirades

Senhor, pois Deus nom quer que mi queirades
creer a coita que me por vós vem,
por Deus, creede ca vos quero bem
e jamais nunca m'outro bem façades;
e se mi aquesto queredes creer,
poderei eu mui gram coita perder;
e vós, senhor, nom sei que i perçades

em guarirdes voss'homem, que matades,
e que vos ama mais que outra rem;
por mim vos digo, que nom acho quem
me dê conselho, nem vós nom mi o dades.
Pero Deus sabe quam de coraçom
hoj'eu vos amo e, se El me perdom,
desamo mi porque me desamades,

per bõa fé, mia senhor; e sabiades
ca por aquest'hei perdudo meu sem;
mais se Deus quiser que vos dig'alguém
quam bem vos quero e que o vós creades,
poderei eu meu sem cobrar des i;
e se a vós prouguer que seja assi,
sempre por en bõa ventura hajades.
554

Em Tal Poder, Fremosa Mia Senhor

Em tal poder, fremosa mia senhor,
sõo de vós qual vos ora direi:
que bem ou mal, enquant'eu vivo for,
qual vos prouguer, de vós atendê-l'-ei;
ca se me vós, senhor, fezerdes bem,
bem me verrá de Deus e doutra rem;
e se me vós quiserdes fazer al,
Amor e Deus logo me farám mal.

E entend'eu, fremosa mia senhor,
mentr'eu vos vir, que nunca perderei
gram bem de Deus, nem de vós, nem d'Amor,
ca, pois vos vejo, de tod'eu bem hei;
e direi-vos, mia senhor, que mi avém:
amor de Deus prend'[e] esforç'e sem,
mentre vos vejo; mais pois vos nom vir,
esforç'e sem e Deus ham-mi a falir.

E des entom, fremosa mia senhor,
nunca de Deus nem de mim prenderei
prazer, nem bem de que haja sabor;
ca, mia senhor, de qual guisa haverei
bem deste mundo, pois me for daquém?
Ca perderei quanto prazer me vem,
pois vos nom vir, e perderei des i
Deus, mia senhor, e o seu bem e mi.

E direi-vos, fremosa mia senhor,
pois vos nom vir, quam perdudo serei:
perderei sem e esforç'e pavor
e des i bem nem mal nom sentirei;
e, mia senhor, al vos ar direi en:
nom mi terrá, conselho que me dem,
dano, nem prol, nem pesar, nem prazer
e per qual guisa m'hei mais a perder.

Ca perdud'é, senhor, a meu cuidar,
quem perde sem e prazer e pesar.
695

De Tal Guisa Me Vem Gram Mal

De tal guisa me vem gram mal
que nunca de tal guisa vi
viir a home, pois nasci;
e direi-vos ora de qual
guisa, se vos prouguer, me vem:
vem-me mal porque quero bem
mia senhor e mia natural,

que am'eu mais ca mi nem al;
e tenho que hei dereit'i
d'amar tal senhor mais ca mi
– e seu torto x'é, se me fal;
ca eu nom devi'a perder
por mui gram dereito fazer;
mais a mim dereito nom val.

E pois dereito nem senhor
nom me val i, e que farei?
Quem me conselho der, terrei
que muit'é bom conselhador;
ca ela nom mi o quer i dar,
nem m'ar poss'eu dela quitar.
E qual conselh'é aqui melhor?

Esforçar-me e perder pavor
o melhor conselh'é que sei,
e em lhe dizer qual tort'hei
e nom lho negar, pois i for;
e ela faça como vir,
de me matar ou me guarir,
e haverei de qual quer sabor.
564

Tal Hom'é Coitado D'amor

Tal hom'é coitado d'amor
que se nom dol ergo de si;
mais doutra guis'avém a mi,
se me valha Nostro Senhor:
por gram coita que d'amor hei
já sempre doo haverei
de quem dele coitado for.

E de quem filhar tal senhor
que lhi nom queira valer i,
qual eu filhei, que, poila vi,
sempre me teve na maior
coita das que no mundo sei.
E como me nom doerei
de quem d'atal vir sofredor?

Ca de tal coita sabedor
sõo, por quanto mal sofri
amand'; e nunca m'en parti,
e cada vez mi foi peor;
e por esto, per que passei,
de me doer gram dereit'hei
de quem assi for amador.
616

Videos

50

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.