Lista de Poemas
Quando um dia estiver morta
e sobre mim caírem os adjetivos mais ternos,
não vou mover um dedo
de dentro do meu silêncio:
vou desdenhar do eterno
o que sempre chegou tarde,
demais, quando já nem era preciso.
Pior que o cão é sua fúria
pior que o gato é sua garra,
pior que a sanha de ferir
a que se esconde
sob feição de amor.
Pior que a vida é a não-vida
do que se faz espectador;
nem mergulha, nem nada, nem conhece
o mar fundo:
está sempre à beira da estrada.
Parecia um pássaro
de folha, uma líbélula,
uma coisa evanescente
e volátil:
não era nada, um pensamento / de amor? /
que se ensaiou na sombra
e desapareceu qual rã.
Natal
mas a chuva anda constante,
e anda tão longe, perdido,
o que a alma busca na treva.
Que me ficou do ano findo?
Que se pode aprender neste Natal?
A renascer, gritam os sinos,
embora todos saibam que é mortal
aprendizagem essa, sem sossego.
Nasce um deus de palha que o cerca
e nos convida a reviver sua paixão,
já não a cada ano, a cada instante
renovada. E o sangue se rebela
e tem vontade de dizer-lhe não.
Eu tão prepositiva, desfaleço
na contorção do que se me propõe:
o mundo não se esquiva à inquisição,
o medo não é bom amigo, o medo
indica a minha forma de não ver
a vã provocação.
Que estreito este caminho, que murado!
Tão pouco que eu ousasse e já seria
talvez o passo necessário
no sentido de ter ou de abster-me,
mas sempre um passo, um movimento,
a voz, um surdo grito, sussurrando
o enleio que o amor conhece,
entretecendo com a hera que cobre o corpo
a matéria do meu espírito,
o seu sigilo, a disputa, os meus dispersos sentidos.
Minha felicidade vem de quando estou só
e ninguém me interrompe no poema,
essa espécie de transfusão
do sangue para a palavra,
sem qualquer estratagema.
A palavra é meu rito, minha forma
de celebrar, investir, reivindicar:
a palavra é a minha verdade,
minha pena exposta sem humilhação
à leitura do outro,
hypocrite lecteur, mon semblable.
Não conheci o desterro
mas sei a quanto obriga.
Vivo na minha terra,
embora desencontrada. Quem sabe
de mim, quem me ouve
o que não digo, quem segura
a rédea de meu sonho, permitindo
o risco da vertigem, o perigo
de conhecer o abismo?
Perdi a capacidade de assombro
mas continuo perplexa:
esta cidade é minha, este espaço
que nunca se retrai,
mas onde o ardor da antiga
chama, que me movia no mínimo
gesto?
Esperei tanto, no entanto, esvaem-se
na relva, ao sol, no vento,
os sonhos desorbitados,
parte da minha natureza
sempre em luta com o fado.
Perdi também no contato
com o mundo, pérola radiosa, vão pecúlio,
uma certa inocência;
ficou a nostalgia de uma antiga
união com o que existe,
triste alfaia.
Comentários (0)
NoComments
A Vida Natural (XIX) | Poema de Marly de Oliveira com narração de Mundo Dos Poemas
A Força Que Há Na Luz | Poema de Marly de Oliveira com narração de Mundo Dos Poemas
Poeme-se: Thiago Lacerda declama Marly de Oliveira
Poema | Marly de Oliveira - Epigrama | Poesia Brasileira Feminina | Declamação | Melhores Poestisas
Vídeo nº 100 - Semana Marly de Oliveira - 5
"LAURO MOREIRA" Interpreta: O Sangue na Veia, Marly de Oliveira
A suave pantera - Marly de Oliveira
Epigrama - Marly de Oliveira - Poesia Diária #25
Marly de Oliveira - A força que há na luz, não sua ausência...
"LAURO MOREIRA" Interpreta: Epigrama, Marly de Oliveira
MARLY DE OLIVEIRA
RECITAL DE LAURO MOREIRA NA ABL: A POESIA DE MARLY DE OLIVEIRA
Poema de Marly de Oliveira - A Manuel Bandeira, no dia de seu aniversário.
Marly de Oliveira - Só a poesia nos Salvará
254 - Elegia - Marly de Oliveira
Poema de Marly de Oliveira - A São Francisco de Assis.
"LAURO MOREIRA" interpreta: Elegia, Marly de Oliveira
Palestra - recital Marly de Oliveira
40tena em versos - Marly de Oliveira #11
Poema "É um prelúdio de alegrias" de Marly de Oliveira #marlydeoliveira #almapoética #poema #poesia
Poesia Falada #98 | Poema: Cerco da primavera | Marly de Oliveira
Vídeo nº 98 - Semana Marly de Oliveira - 3
Januário de Oliveira - Marly (A dor do abandono) - 1933
Palco das grandes Mães | Marly de Oliveira | Parque Shopping Prudente
Marly Oliveira - Celebração da Vida (Show de lançamento)
Vídeo nº 96 - Semana Marly de Oliveira - 1
MÃOS DADAS - MARLY DE OLIVEIRA interpretada por Lauro Moreira
João Filho - Marly de Oliveira em Buenos Aires - Para Person Ramos Araújo
Marli de Oliveira
Marly Oliveira - Oxum Yara (Live)
marly vieira de oliveira
🎼 Oxum Yara ⭐ Marly Oliveira 🙏 Música de Rezo
Vídeo nº 97 - Semana Marly de Oliveira - 2
Vídeo nº 101 - Semana Marly de Oliveira - 6
Entrevista com: Marly de Oliveira Freitas e José Francisco Barreto
Vídeo nº 102 - Semana Marly de Oliveira - 7
💖Marly de Oliveira 💖Aluna do SOMA Protocolo 21 dias
Marly Oliveira - Nova História (clipe oficial)
Carteira de Carro no Japão - Entrevista com Marly de Oliveira
Resgate Literário com Marly de Oliveira ...
Vídeo nº 99 - Semana Marly de Oliveira - 4
Quando um dia estiver morta de Marly de Oliveira.
La Paloma de S. de Yradier
Sister Act Medley -Mudança de Hábito
Programa Marly Oliveira 26/02/2021
Catedral_ Tanita Tikaram
BOB MARLY REMIX toccy de oliveira
Rio
Desencontro_ Chico Buarque
Sonatina Opus 68 _Diabelli
Português
English
Español